Há cerca de uma semana, o bilionário chinês Jack Ma, cofundador do Ali Baba, um conglomerado conhecido como o eBay de lá, afirmou que era uma “bênção” trabalhar no chamado “sistema 996”. Traduzindo: ficar no batente das nove da manhã às nove da noite, ou seja, 12 horas por dia, seis dias por semana – uma jornada semanal de 72 horas, relativamente comum nas empresas de tecnologia chinesas. De acordo com a Constituição brasileira, o limite máximo de jornada de trabalho é de 44 horas semanais.

A China apresentou um crescimento econômico espantoso, de 10% anuais, por mais de 25 anos – do final da década de 1970 a meados dos anos 2000 – baixando depois esse ritmo para um patamar sólido de 6%. Sem liberdade política ou reivindicações sindicais, o trabalhador daquele país comemora essa robustez porque lhe abre as portas do consumo.

Ma, de 54 anos, tem uma fortuna pessoal estimada em 40 bilhões de dólares, o equivalente a 160 bilhões de reais, e diz que, se os trabalhadores diminuírem o ritmo, a China provavelmente perderia parte da sua vitalidade econômica. No entanto, na sua análise, ele parece não levar em conta o fator humano e todas as consequências adversas que o excesso de trabalho provoca. Doença coronariana, estresse e depressão são algumas das enfermidades relacionadas a um estilo de vida que inviabiliza o convívio social e familiar, além da prática de atividade física.

O governo chinês mandou um recado de que não corroborava com essa visão empresarial através do “Diário do Povo”, jornal oficial do Partido Comunista: “o sistema 996 não só reflete a arrogância de gestores, mas também é injusto”. Na sequência, Ma minimizou sua declaração, afirmando que jornadas longas demais são insustentáveis, mas pontuou: “se você ama o que faz, é como se não trabalhasse um dia sequer”.

No vizinho Japão, há inclusive uma palavra que significa morrer de tanto trabalhar: karoshi. A cultura da hora extra é brutal: cerca de 25% das empresas japonesas têm empregados que excedem 80 horas extras por mês. Mais: embora tenham direito a 20 dias de férias por ano, 35% não gozam um dia folga, com medo de serem vistos como pouco comprometidos. Casos recentes de suicídio de jovens que chegavam a dormir no escritório e viviam uma rotina de privação de sono provocaram um grande debate no país, que busca implementar medidas para mudar esse estado de coisas.

 

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