A primeira leva de reportagens sobre o futuro do trabalho era assustadora: os robôs ocupariam a maior parte dos postos, pulverizando dezenas de profissões e condenando ao desemprego centenas de milhões de pessoas. O poder disruptivo da tecnologia e da inteligência artificial é real, mas os analistas já são mais otimistas: as mudanças eliminarão empregos, mas levarão ao crescimento econômico e gerarão novas ocupações.

A turma de pessimistas também tem um bom argumento: mesmo que a tecnologia não provoque desemprego em massa, vai criar uma divisão digital, sinônimo de desigualdade. De um lado estará uma elite que dominará as habilidades exigidas por essa nova era; do outro, os que não tiveram acesso a uma formação adequada e ficarão com atividades menos valorizadas. A saída é educação, educação, educação.

De acordo com um dos últimos relatórios da McKinsey, uma das maiores empresas de consultoria do mundo, o otimismo deve ser cauteloso. A automação é um processo sem volta que levará 21% dos homens e 20% das mulheres a perderem seus empregos até 2030. Provavelmente vamos caminhar para uma espécie de cooperação com a inteligência artificial, convivendo cada vez mais com ela.

Sem dúvida haverá perdas. Deixarão de existir funções de operadores de máquinas, de prevalência masculina; para as mulheres, postos no setor de serviços. Entretanto, a expansão do mercado de trabalho abrirá posições em outros setores, como a indústria de cuidados na saúde e no campo científico. As mulheres devem ser incentivadas, desde a infância, a se interessar por ciência e computação, áreas que ainda são dominadas por homens e onde estarão os melhores salários.

Ambos os sexos terão que abraçar a tecnologia, ou engrossarão os argumentos dos pessimistas, que vislumbram apenas a precariedade da chamada gig economy, dos contratos temporários que vêm proliferando através de aplicativos e site. Olhar com pitada otimista: as redes sociais poderão ter um papel relevante para proteger os trabalhadores. Os bons profissionais poderão se unir em associações e os maus contratantes seriam denunciados em fóruns, com direito à execração pública. Assisti a uma palestra do professor Gustavo Robichez, coordenador do Ecoa, departamento da PUC-Rio voltado para a educação digital, na qual ele sintetizou sua visão: “o futuro não está nos robôs, está na criatividade das ações e atividades não repetitivas”. Vamos torcer.

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