O medo é uma ferramenta poderosa e indispensável à sobrevivência. No entanto, não pode se tornar o protagonista de nossas vidas, ou correremos o risco de paralisia. Por isso é crucial que saibamos domesticar o bicho: para que nossa lente não enxergue apenas o pior cenário. Por esse filtro, a mente vai descortinar a possibilidade de fracasso como uma ameaça e toda a energia será destinada a nos proteger, nos escondendo ou fugindo de cena. O sentimento é bastante comum no mundo corporativo. Por insegurança ou temor do julgamento de terceiros, as pessoas se calam, não dizem o que pensam, procrastinam e deixam de brilhar, enquanto a empresa perde a contribuição de um talento.

Margee Kere é socióloga e sua área de estudos é o medo. Autora de “Scream: chilling adventures in the science of fear” (em tradução livre, “Grito: aventuras arrepiantes na ciência do medo”), afirma que se deparar com um urso ou gelar diante do chefe são situações que provocam reações muito parecidas no organismo. As chances de encarar uma fera são remotas, mas sobram oportunidades aterrorizantes no ambiente de trabalho que podem impactar nossa sobrevivência.

O que Margee propõe é uma espécie de “dessensibilização”. Para ela, indivíduos só atingem seu potencial se vencerem essa limitação, como defende em uma de suas frases: “acredito que exploração e aventura sejam o sentido da vida. É olhar atrás da cortina, ver o que há embaixo das pedras e não ter medo de se arriscar no desconhecido”. Além de sugerir que as organizações trabalhem para tornar o ambiente mais acolhedor, ela recomenda que as pessoas simulem as situações estressantes, com amigos ou colegas de confiança, como num teatro.

Se o caso é não conseguir abrir a boca numa reunião, teste um roteiro que aos poucos lhe dê confiança. Pode ser um começo de observações genéricas, até sentir que a voz não fraqueja e você pode expor suas ideias. Não há nada de errado em ser cauteloso, mas não deixe que o bom seja inimigo do ótimo, isto é, não espere que seu projeto chegue ao estado da arte para submetê-lo à apreciação alheia. Inicie sua fala dizendo que se trata de um esboço que gostaria de compartilhar e que conta com as contribuições de todos. Assim está criado um espaço para o erro e para o aperfeiçoamento. Por último, mas não menos importante: a aversão ao risco e o fracasso, que nos impede de opinar e propor coisas novas, nos leva a não pedir ajuda. Nenhuma empresa sensata parte do princípio de que todos sabem tudo. Portanto, não caia na armadilha de se calar com receio de parecer incompetente. Saia do seu casulo e dê o primeiro passo para construir uma rede de parcerias.

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