As empresas gostam muito de ver seus funcionários como embaixadores da marca. Comentários e “likes” elogiando a companhia são sempre bem-vindos. No entanto, e quando as manifestações fogem desse roteiro, indo de críticas construtivas a opiniões que vão contra os interesses da organização? Qual é a receita: conversar, censurar, punir? Numa de suas últimas edições, a revista britânica “The economist” se vale de dados de Pascal Besselink, advogado holandês especializado em direito trabalhista, que estima que, em seu país, uma em cada dez demissões abruptas está relacionada ao comportamento do colaborador nas redes sociais. Todos saem perdendo quando falta espaço para a troca de ideias e o acolhimento de opiniões divergentes.

Mas o campo de batalha é bem maior. Se antes as opiniões geravam discussões acaloradas nas mesas de bar, hoje em dia elas se transferiram para o ambiente digital – e os embates têm provocado cada vez mais vítimas. É claro que não há justificativa para quem não demonstra respeito pelos valores democráticos ou defende teorias fascistas e tóxicas, como a da supremacia branca. No entanto, já quem utilize um outro tipo de arma: a parte que se sente ofendida aciona a empresa onde trabalha a pessoa que fez o comentário, colocando-a contra a parede.

A fronteira entre o ambiente profissional e o privado deixou de ser nítida. As empresas alegam que, para garantir diversidade e inclusão, precisam estabelecer limites. Em 2017, o Google demitiu o engenheiro James Demore depois de ele escrever que as mulheres são menos qualificadas para empregos na área de tecnologia. Entretanto, o mesmo Google vem sendo acusado de tentar silenciar suas vozes críticas. No fim do ano passado, quatro funcionários foram demitidos com a alegação de terem violado normas de segurança. Para os colegas, esta foi uma manobra de intimidação: a organização estava lidando com protestos sobre suas políticas internas e contratos potencialmente lesivos para a sociedade.

Há companhias que criaram códigos de conduta nas redes – e o ideal é que sejam debatidos internamente – mas há outras que preferem descartar o colaborador que está na berlinda. Também é possível o movimento para revidar e há empregados que vão à justiça contra os patrões que os puniram – caso do Google. Transparência de menos, hipocrisia de sobra. O clima só tende a esquentar e, a desconfiança, aumentar.

 

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