Elizabeth Holmes: executiva à frente do escândalo envolvendo a Theranos / Divulgação

O documentário “A inventora: à procura de sangue no Vale do Silício”, está disponível desde o começo do mês pelo canal HBO, e é uma aula sobre o pesadelo de trabalhar numa empresa que respira fraude. Conta a história de Elizabeth Holmes, fundadora da Theranos, uma jovem executiva que chegou a ser comparada a Steve Jobs – aliás, seu guarda-roupa era claramente inspirado no dele. Em 2014, a startup valia mais de 9 bilhões de dólares, o equivalente a 36 bi de reais. E o que estava por trás desse “unicórnio” do Vale do Silício? Um equipamento portátil, batizado de Edison, que prometia fazer mais de 200 tipos de exames a preços módicos e com apenas algumas gotas de sangue.

Elizabeth foi capa de revistas, deu inúmeras entrevistas e palestras, mas enganou seus investidores, que chegaram a aportar 700 milhões de dólares (quase 300 milhões de reais) na empresa, e o público. As explicações sobre o equipamento, que se assemelhava a uma caixa na qual a amostra de sangue era inserida para a realização dos testes, eram sempre vagas. Só que o motivo não era proteger a tecnologia inovadora dos concorrentes, porque ela simplesmente não existia. A picaretagem veio à tona depois do trabalho investigativo do repórter John Carreyrou, do “Wall Street Journal”, em 2015.

Mesmo sendo ameaçados por processos, funcionários que haviam deixado a companhia abasteceram o jornalista com detalhes: a Theranos realizava a maior parte dos exames com equipamentos convencionais porque Edison fazia no máximo cerca de 15 testes. Além disso, eram comuns os erros de diagnósticos. Em 2018, Elizabeth e Sunny Balwani, presidente da firma, foram acusados de fraude massiva. Ela teve que pagar uma multa de 500 mil dólares e ficou proibida de dirigir empresas de capital aberto por dez anos, mas ainda enfrenta diversos processos.

A experiência foi traumática para a esmagadora maioria dos empregados. Para manter a farsa, todos tinham seus e-mails monitorados e quase não havia comunicação ou troca de informações entre os departamentos. Um dos ex-funcionários conta que seu próprio avô, que havia investido na Theranos e o apresentara a Elizabeth, no começo se recusou a acreditar nas acusações que o neto fazia à antiga chefe. Sentimentos como frustração, impotência, vergonha e revolta são comuns quando alguém se depara com esse tipo de situação. Além da sensação de ter jogado fora anos de vida profissional, há o temor de que a passagem por uma empresa com este passivo ético representa uma mancha no currículo difícil de superar.

Não há uma “receita de bolo” que garanta êxito numa entrevista para uma nova colocação, mas honestidade é a chave para conquistar a confiança de um potencial empregador. A pior alternativa é tentar apagar o passado do currículo, como se ele não tivesse existido. Na verdade, esse é o tipo de experiência que ensina lições preciosas sobre como transparência e compliance são indispensáveis para a sustentabilidade de qualquer negócio.

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