No dia 6 de julho, Thiago de Jesus Dias sofreu um acidente vascular cerebral (AVC) quando fazia uma entrega de comida por aplicativo em São Paulo. Foi socorrido pela cliente, a advogada Ana Luísa Pinto, que entrou em contato com a empresa do aplicativo, mas recebeu uma resposta chocante. Reproduzo o que ela contou ao G1: “a Rappi, sem qualquer sensibilidade, nos pediu que déssemos baixa no pedido para que eles conseguissem avisar os próximos clientes que não receberiam seus produtos nos horários previstos”.

Thiago ficou duas horas à espera de socorro, que não veio nem da empresa, nem do SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgências). Foram amigos que o levaram para o Hospital das Clínicas, onde morreu dois dias depois. Tinha 33 anos. A Rappi disse que lamentava profundamente a morte do entregador, mas só fez contato com a família no dia 10. Esse é um bom retrato do que está acontecendo na base da pirâmide – ou da cadeia alimentar, já que estamos falando de comida – da gig economy: o reino dos aplicativos que entregam de sanduíches a jantares completos.

O repórter Andy Newman, do jornal “The New York Times”, trabalhou alguns dias como entregador e sentiu na pele a precariedade do serviço. “Vi de perto como, na era da tecnologia de ponta, surgem ocupações desprovidas de qualquer tecnologia e de status. Ao mesmo tempo são criadas novas oportunidades e formas de exploração”, escreveu. Vale registrar que, em Nova York, eles circulam em bicicletas elétricas, mas, ainda assim, ano passado quase um terço se machucou e teve que ficar de molho alguns dias. Pelo menos quatro morreram em acidentes de trânsito.

A pesquisadora Maria Figueroa, da Universidade de Cornell, vem estudando o tema e afirma que os entregadores são “os que estão na situação mais vulnerável do trabalho digital”. No mundo da gig economy, o balcão de empregos se dá através de aplicativos. Ali estão também arquitetos, contadores, motoristas e a lista não para de crescer. Pesquisa realizada pela universidade com cerca de 200 trabalhadores mostra uma situação na qual direitos elementares estão sob risco. Será preciso organizar esses serviços para que o subemprego digital não se torne mais uma praga do século 21.

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