O professor Fernando Schüler, curador do projeto Fronteiras do Pensamento, escreveu, em meados de maio, um artigo brilhante para a “Folha de S.Paulo” com o título: “Não confunda o país com sua timeline”. Ali, afirmava que o ambiente tóxico das redes sociais leva a uma leitura equivocada do Brasil. Schüler reconhecia que há um novo ator na democracia: “a minoria volátil e barulhenta que protagoniza o debate público nos meios digitais”. No entanto, também lembrava que, nos Estados Unidos, um projeto chamado “The hidden tribes” (“As tribos escondidas”) mostrou que, na base da sociedade, “o nível de consenso e moderação é significativamente maior do que habitualmente sugerem os argumentos em torno da democracia polarizada”. Trocando em miúdos: de um modo geral, as pessoas não compartilham essa histeria conservadora.

Aproveitando que junho é o mês do orgulho LGBT, a mesma “Folha” publicou, no começo do mês, reportagem intitulada “Empresas ignoram polarização por defesa de direitos dos LGBTs”. Apesar da onda de conservadorismo político e do bate-boca nas redes sociais, as grandes companhias não recuaram em suas ações de inclusão, diversidade e defesa dos direitos LGBT. Um dos entrevistados contou ao jornal que procurou o RH da multinacional onde trabalha para pedir auxílio-creche para os filhos que ele e o marido esperavam com a ajuda de uma “barriga solidária”. Foi surpreendido pela gerente, que considerou o pedido modesto, e disse que iria pleitear uma licença-paternidade de seis meses. Mais: uma caminhoneira trans estrela campanha digital recém-lançada pela Shell.

Enquanto as empresas vêm mudando suas políticas internas para espelhar a nova configuração social e reter talentos, as marcas já se deram conta de que não basta um discurso cosmético de campanha publicitária. É preciso empunhar bandeiras, ter um propósito – e a prática não pode se descolar da teoria. Por falar em cosméticos, na quarta-feira passada, a cadeia Sephora fechou seus 400 escritórios, centros de distribuição e lojas nos EUA durante uma hora. Motivo: treinamento sobre diversidade para seus 16 mil funcionários depois de um episódio racial (infelizmente, a ação não foi replicada aqui).

Em abril, a cantora negra SZA, indicada ao Grammy, foi vítima de racismo numa loja da Califórnia. Uma funcionária chamou o segurança para se certificar de que a artista não estava roubando nenhum item. SZA tuitou sobre o incidente e a Sephora se viu mergulhada numa crise de imagem. É bom lembra que, há cerca de um ano, a rede Starbucks fechou 8 mil lojas nos EUA para um treinamento semelhante, depois que um gerente na Filadélfia chamou a polícia para prender dois “suspeitos” que, na verdade, faziam hora no café enquanto esperavam um amigo – claro, eram negros. Ou seja, há muita gritaria, mas a caravana continua passando.

 

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