“Kia ora”, ou seja, alô! Em janeiro, tive a oportunidade de passar quase três semanas na Nova Zelândia. Nesses tempos bicudos de água de péssima qualidade no Rio de Janeiro, fiquei fascinada em poder beber água de torneira, de riacho, de cachoeira, enfim, o país é privilegiado em manter seus mananciais. Poderia também incluir o ar puro e a segurança, mas vou tratar do estilo maori de gestão, que traz algumas boas lições para nós.

Os maoris chegaram à Nova Zelândia há cerca de 800 anos, vindos da Polinésia. Quando os ingleses chegaram no país, não tinham um contingente militar significativo, e por isso seu ímpeto colonialista foi um pouco menos truculento do que em outros lugares – o que incluiu um tratado, em 1840, atendendo a reivindicações das lideranças nativas. No entanto, foi a partir da década de 1960 que a cultura maori iniciou um processo de revitalização que vai de vento em popa nos dias de hoje. Há muitos locais considerados sagrados cuja administração está nas mãos dos maoris, obedecendo à sua concepção do mundo.

Queenstown, na ilha do Sul da Nova Zelândia, é uma atração irresistível para turistas, mas não apenas para eles. Jovens do mundo todos vão para estudar, trabalhar e aproveitar o alto astral do país. No rio Dart, nas  proximidades da cidade, há passeios de jet boat, um barco de velocidade, e de canoa. Ali a propriedade é maori e, depois de três meses, os guias têm uma “iniciação”: numa cerimônia aguardada com ansiedade pelos novatos, eles ganham um colar com um pingente de “pounamu”, que conhecemos como jade. Além de a pedra ser considerada sagrada, todos os pingentes dos mais de 400 empregados da empresa foram cortados do mesmo bloco, para simbolizar sua união e seu compromisso com o meio ambiente. A guia, uma jovem norte-americana de Montana, dizia estar preparando as lágrimas para a sua iniciação, que ocorreria neste mês.

Os céticos retrucarão que se trata apenas de marketing, mas a verdade é que os conceitos maoris representam uma “cola” que une as pessoas. Não custa nada repassar alguns deles, ainda mais num cenário no qual o mundo corporativo parece ter dado as costas para o bem-estar dos funcionários. Em primeiro lugar, “pūtake”, a raiz: todo empreendimento deve ter sua razão de ser e estar em consonância com os valores que importam. “Tūranga” é a âncora da empreitada, algo equivalente a uma cláusula pétrea. Por exemplo, a terra maori é um ativo inegociável. “Tikanga” engloba os códigos, as regras e formas de fazer negócio: autodeterminação, senso de pertencimento, hospitalidade, generosidade, união. Em seguida, “Kaitiakitanga”, o princípio de ser um guardião dos recursos naturais. Para fechar, “Rangatiratanga”, o exercício da liderança, o direito de quem tem a autoridade moral para zelar pelas pessoas, pela comunidade e pelo meio ambiente. Não é pouca coisa. Até a próxima, ou melhor, “Ka kite anō”!

 

CONTINUAR LENDO
1 0