Desde os tempos de escola, Julian Richer ganhava uns trocados comprando e vendendo. Abriu seu primeiro negócio, de aparelhagens de som, com apenas 19 anos, e construiu uma cadeia com 52 lojas. No entanto, somente o começo da sua trajetória se assemelha a de outros empreendedores de sucesso. Este ano, depois de completar 60 anos, Richer anunciou que estava transferindo 60% da sua participação na empresa para um fundo que pertence aos cerca de 530 funcionários. Lembrou que o pai havia morrido nesta idade e que se sentia recompensado por poder estar fazendo isso. E ainda reservou um terço do lucro de 2018 para um bônus extra: cada empregado recebeu mil libras (o equivalente a R$. 5.500) por ano trabalhado.

O gesto de generosidade reflete seu estilo de gestão ao longo de quatro décadas como empresário. Costuma dizer que “a ficha caiu” quando leu o livro “In search of excellence”, traduzido para o português como “Vencendo a crise”, de Tom Peters e Robert Waterman. Os autores mostravam como as companhias com melhor desempenho tinham duas características em comum: tratavam bem não apenas os clientes, mas também os trabalhadores.

Richer pôs em prática os ensinamentos e escreveu o livro “The ethical capitalist” (“O capitalista ético”), lançado ano passado, no qual prega que as organizações que criam uma cultura baseada em justiça, honestidade e respeito atraem colaboradores engajados e colhem resultados melhores. Além disso, sempre prestigiou os quadros internos: todos os membros de seu conselho vieram da própria empresa.

Como manter a equipe motivada? Para Richer, uma maneira simples e eficaz é monitorar o nível de contentamento do time semanalmente. Os empregados dão uma nota, de zero a dez, que reflita seu ânimo – sempre com o anonimato garantido. Também nunca deixou de fazer visitas constantes às lojas para conversar com os funcionários. Um pouco mais sobre seu estilo: os estabelecimentos abrem ao meio-dia para que todos os treinamentos possam ser feitos pela manhã sem que as pessoas tenham que acordar mais cedo. E não para por aí: na eventualidade de alguém de folga receber um telefonema, a pessoa ganha um “pedido de desculpas” na forma de 20 libras, isto é, 110 reais. Bônus são calculados com base nas vendas, mas as avaliações dos consumidores têm um peso para o resultado final.

Dispondo de 40% da companhia, Richer manterá o cargo de diretor administrativo, mas seu salário será o mesmo de sua secretária. Num mundo de trabalho cada vez mais precário, ele diz que tem uma missão: tornar o mundo um lugar melhor para se viver. “A distância entre ricos e pobres só vem aumentando. As pessoas odeiam isso, eu odeio isso. Transforma o capitalismo num nome feio, mas esse ainda é o melhor sistema que conheço”, resume.

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