A tragédia em Brumadinho serve como reflexão para o mundo corporativo como um todo: o objetivo é somente crescer e dar lucro, sem compromisso sério com o bem-estar alheio? E quando digo sério me refiro ao real comprometimento da empresa, e não apenas aos textos feitos sob encomenda para emoldurar missão, visão e valores da companhia. A ideia de a marca ter um propósito, além de gerar dividendos, vem ganhando corpo e conquistando adeptos entre os executivos, mesmo que o movimento tenha sido iniciado mais como o resultado do clamor da sociedade do que embasado em boas intenções empresariais. Mesmo assim, é um começo.

A Vale é a segunda maior exportadora de minério de ferro do planeta, mas seu valor de mercado já derreteu em mais de 50 bilhões de dólares. As  ações chegaram a cair 24,5% depois do rompimento da barragem. Agora também está às voltas com uma ação ajuizada em Nova York contra a mineradora e seus executivos, por terem mentido ou omitido informações sobre suas operações que provocaram prejuízos financeiros aos investidores. Haverá ainda um longo caminho de indenizações e reparos à tragédia ambiental provocada pela empresa.

Na reunião anual de lideranças mundiais em Davos ocorrida mês passado, o diretor de marketing da P&G, Marc Pritchard, declarou à revista “Fast Company” que os consumidores agora demandam que as organizações tenham uma posição clara a respeito dos principais temas e tomem partido para defender esses pontos de vista. O chamado brand activism (ativismo da marca) será o próximo patamar onde se darão as batalhas pela preferência do público.

De acordo com pesquisa anual da consultoria Accenture intitulada Global Consumer Pulse Research, quase dois terços dos consumidores esperam que as empresas criem produtos e serviços que tenham um propósito para a sociedade, como estimular hábitos saudáveis ou se comprometer com a sustentabilidade. A demanda inclui todas as faixas etárias, de adolescentes aos representantes dos baby boomers. Foram cerca de 30 mil entrevistados no mundo todo, e a maioria acha que as corporações não são suficientemente transparentes. Isso vem mudando hábitos de consumo e as marcas com maior engajamento com causas nobres estão na dianteira. As que insistem no velho modelo do lucro a qualquer preço podem ainda ostentar bons números, mas talvez não tenham espaço na nova ordem social que começa a se desenhar.

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