Com a mensalidade do plano de saúde pesando cada vez mais no bolso, e a qualidade dos serviços nem sempre à altura, muitos brasileiros estão deixando o plano particular de lado . Recentemente, a Agência Nacional de Saúde Suplementar informou que mais de 3 milhões de pessoas saíram dos planos de saúde nos últimos anos, por conta da crise econômica.

E de acordo com um estudo realizado pelo Serviço de Proteção ao Crédito e pela Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas em parceria com o Ibope , no ano passado, cerca de 70% dos brasileiros não tinham plano de saúde particular. Entre os que chegaram a pagar por um plano, 25% cancelaram o plano por não terem condições de pagar.

E será que dá para ficar sem plano de saúde e usar os serviços particulares alternativos oferecidos pelas healthtechs? Eu conversei com algumas para entender como elas estão usando a tecnologia para democratizar o atendimento particular, em clínicas, exames e terapias.

Renato Pelissaro, Chief Marketing Officer (CMO) da Dr. Consulta, redes de centros médicos criada em 2015 diz que a proposta é justamente oferecer serviços de qualidade para a população que não tem condições de pagar por um seguro saúde. A tecnologia, segundo ele, entra na eficiência da operação. “Quando você vai se consultar com a gente, preenche um questionário online sobre seu histórico médico e seus sintomas que é comparado a bases de dados de outros milhões de pacientes, com a literatura médica e dá para o médico um pré-diagnóstico. Com isso, nós conseguimos ser mais eficientes e isso se converte em um custo mais baixo para o paciente”, ilustra o executivo.

Outro exemplo, segundo Renato, é organizar os atendimentos entre 100 especialidades e 56 centros médicos em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Ele conta que um sistema baseado em algoritmos avalia as especialidades mais demandadas pela população de cada região, incluindo o que eles estão buscam no Google, e definem quais especialidades médicas tendem a ter uma procura maior. “Aí o sistema vai enviar o convite ao médico recomendando a abertura de uma escala médica da especialidade dele em determinada região”. Assim, o sistema vai ficando cada vez mais inteligente conforme ele vê que há demanda de pacientes ocupando aquelas escalas”, ele observa. O resultado é uma média de mais de 80% de ocupação das escalas abertas com base nos algoritmos entre os 800 médicos associados.

O doutor Felipe Folco, diretor médico da rede de clínicas Cia. da Consulta, observa que a tecnologia ajuda a aproximar o paciente do médico. “O agendamento pode ser feito pelo site, por telefone ou via celular também por webapp, para evitar que a pessoa tenha que baixar um aplicativo”, afirma.

Inteligência artificial emocional
Quem busca tratamento psicológico também esbarra com a falta de opções dos planos e costuma ter dificuldade de encontrar um atendimento particular que seja acessível tanto em valores como em informação. Esse foi um dos problemas que a Zenklub procurou solucionar. Por meio de um site e um aplicativo, a plataforma oferece sessões de terapia online com psicólogos ou terapeutas por valores mais acessíveis, além de oferecer conteúdos, exercícios e orientações de especialistas.

“Com a tecnologia a gente tem dados suficientes para entender quais profissionais são mais solicitados para quais situações e fazer um match muito melhor de acordo com as suas necessidades. E terapia tem muito uma questão de empatia também”, explica José Simões, um dos criadores do Zenklub. Hoje, a plataforma atende 10 mil pacientes e alcança cerca de 300 mil pessoas por mês com os conteúdos.

O comportamento de uso do site e do app também dão dicas para o sistema oferecer recursos ao usuário. “Se você está procurando muita coisa sobre ansiedade, vamos usar esses dados para mostrar os principais especialistas que podem te ajudar nesse sentido”, explica José. O caminho, segundo ele, é usar a inteligência artificial para otimizar a experiência emocional do usuário e guiá-lo em sua jornada de autoconhecimento.

Custos e benefícios
O modelo de atendimento das healthtechs têm atraído tanto quem saiu do plano como quem ainda tem seguro saúde. De mais de 1,5 milhão de pessoas que já se consultaram na Dr. Consulta, 15% dos clientes buscam o serviço pela rapidez no agendamento, que costuma ser de até três dias, e depois pedem reembolso ao plano. Atualmente, cada consulta na rede custa, em média, R$ 100, e os exames que partem de R$ 16 para um hemograma são parcelados em até dez vezes.

A empresa também começou a trabalhar em parceria com planos de saúde. Em agosto, a SulAmérica passou a oferecer um plano empresarial para empresas de São Paulo, com mensalidades reduzidas, em que o atendimento clínico é feito na rede da Dr. Consulta. Outra aliança envolve o cartão de descontos Yalo. “Pagando uma mensalidade de R$ 33 pelo cartão, o cliente pode fazer consultas por R$ 40 na Dr. Consulta, além de ter descontos de 20% em exames”, destaca Renato.

A Cia da Consulta nasceu em 2017 e hoje conta com oito unidades na capital paulista e na grande São Paulo, em locais de fácil acesso, muito próximos ou até dentro de estações de metrô. Felipe informa que a meta é chegar a 15 unidades no meio do ano que vem, olhando para a região do ABC. O atendimento clínico varia de R$ 90 para uma consulta com um nutricionista a R$ 160 para neuropsicologia. Além dos exames, as redes de clínicas também realizam cirurgias ambulatoriais, como procedimentos dermatológicos ou vasculares.

As sessões na Zenklub são oferecidas em diferentes planos que vão de R$ 290 a R$ 430 por mês por quatro sessões. O site também oferece pacotes de conteúdo a partir de R$ 14,90 onde as pessoas conseguem tirar dúvidas com profissionais, ter acesso a exercícios de meditação e testes que ajudam a identificar sintomas de estresse, depressão ou Burnout e encontrar soluções. “É uma forma de a pessoa ultrapassar uma primeira barreira para procurar ajuda com especialistas. O importante é você se conhecer”, afirma José.

Na ponta do lápis, Felipe afirma que o paciente vê uma economia anual em relação ao plano de saúde, especialmente para o paciente que precisa de cuidados ambulatoriais pontuais, exames preventivos ou acompanhamento de doenças crônicas simples como diabetes, pressão alta ou asma. O serviço inclui pacotes de checkup para homens e mulheres de acordo com a faixa etária de 50 anos ou 65 anos. “A pessoa não precisa pagar mais para ter um bom atendimento e estar em um ambiente legal, com conforto. A ideia é realmente democratizar o bom cuidado com a saúde”, avalia.

Trocar ou não o plano pelos serviços das healthetchs depende muito do histórico e do cenário futuro do paciente. “A pessoa tem que fazer a conta para entender o que faz mais sentido para ela. Mas é importante considerar que, mais para frente, terá potencialmente mais demanda por serviços de saúde e avaliar a vantagem do plano, ou não, na cobertura em casos de emergência”, avalia.

Além disso, ele ressalta que é importante olhar muito para a qualidade do serviço de saúde e não migrar sem ter consciência de que vai ser bem atendido quando precisar.

Atraindo profissionais
José observa que a tecnologia também traz vantagens para os psicólogos, psiquiatras e terapeutas profissionais que estão na plataforma. “Você não precisa de escritório, não precisa de alguém tratando do seu atendimento e não tem que se preocupar com a cobrança. Então basicamente a gente faz o profissional se concentrar no que ele é bom em fazer, que é o atendimento”, afirma.

Até pouco tempo atrás as sessões de terapia online não eram permitidas, mas há um ano, em novembro de 2018, foi aprovada a Resolução nº 11/2018 do Conselho Federal de Psicologia, que regulamenta “a prestação de serviços de psicológicos realizados por meio de tecnologias da informação e comunicação”. Para a Zenklub, cada profissional que deseja entrar na plataforma precisa ter uma autorização do Conselho Regional de Psicologia para poder atender online. Hoje eles têm 200 profissionais em atendimento.

Para atrair os médicos, além da remuneração, a Dr. Consulta aposta em infraestrutura e especialização para atrair seu corpo médico. “Nós oferecemos uma estrutura de trabalho bem adequada, com equipamentos avançados e a possibilidade de trabalhar nas especialidades de seu interesse. Com isso formamos médicos de referência em suas áreas”, conta Renato. A área de diabetes, que tem alta demanda, tornou-se um desses exemplos, segundo ele.

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