Já dizia a minha avó: “quem fala demais, dá bom dia a cavalo”. O ditado é antigo, mas tem peso cada vez maior nessa era em que reputações sobem e descem em tempo real. Falar sem parar, não escutar os outros e passar dos limites dão uma nova dimensão a gafes e provocam crises nos quatro cantos do mundo.

Por aqui, o presidente Jair Bolsonaro vem apagando tuítes deselegantes depois de sua repercussão negativa mas, infelizmente, ele não está sozinho em seu destempero. Para sairmos do nosso quintal, uma boa mostra do estrago causado por esse tipo de atitude ocorreu em Nova York, na semana passada. Na segunda, dia 26 de agosto, às sete da manhã, cerca de 300 bailarinos, entre homens e mulheres, meninos e meninas, transformaram a esquina da Rua 44 com a Sétima Avenida num palco. A performance ocorreu em frente ao estúdio da emissora ABC, onde era transmitido o programa “Good morning, America”, como uma forma de protesto.

Na quinta anterior, a apresentadora Lara Spencer havia feito uma observação meio debochada e rira diante da notícia de que o príncipe George, filho de 6 anos do príncipe William e de Kate Middleton, a duquesa de Cambridge, planejava estudar balé. Na própria segunda, ela se desculpou no ar, dizendo que tinha sido um comentário estúpido. Do lado de fora, os manifestantes dançavam rodeados de apoiadores com cartazes com os dizeres: “#metutu” e “Boys dance too”.

Aliás, já há quem tenha transformado em negócio prever quando uma celebridade vai ser execrada depois de cometer uma gafe. É o que faz a SpottedRisk (em tradução livre, algo como “risco detectado”).  Há cinco anos, Janet Comenos montou um time de checadores na Índia para acompanhar as manifestações de 27 mil figuras proeminentes na rede, em busca de comentários racistas, sexistas ou simplesmente desmiolados.

Esse enorme volume de dados foi entregue a analistas que montaram uma lista com 224 fatores de avaliação, gerando uma pontuação de risco, de um a cem. Quanto mais alto o número de pontos, maiores as chances de a pessoa em questão ser rejeitada ou boicotada por comportamento ou linguagem ofensivos. A tabela é complementada com o “outcry index”, que mede a extensão da reação do público.

A empresa de Janet Comenos pretende ser uma espécie de seguradora – tem o respaldo do Lloyd’s of London, o mercado de seguros e resseguros britânico – e vem batendo na porta de marcas e estúdios que têm contratos com personalidades que costumam atirar no próprio pé. Para Pete Dearborn, um dos executivos da companhia, mesmo as celebridades mais complicadas poderiam ser seguradas. Ele aponta apenas duas exceções: o músico R Kelly, acusado de assédio e abusos sexuais; e o presidente Donald Trump que, na sua opinião, renderia uma ação por semana.

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