Quando entram em campo, as jogadoras da seleção norte-americana de futebol deixam claro que têm a exata noção do quanto valem. No entanto, apesar da superioridade técnica e do entrosamento da equipe, nunca se comportam como se a partida já estivesse ganha e se superam em cada disputa. Ontem, tornaram-se tetracampeãs ao vencer as holandesas por dois a zero na Copa do Mundo de Futebol Feminino, mas a lista de títulos inclui também quatro medalhas de ouro olímpicas.

Nos Estados Unidos, é o futebol feminino que mobiliza a torcida e leva meninas e adolescentes a abraçar o esporte – atualmente, há cerca de 1.5 milhão de moças até os 20 anos batendo bola. Então, por que motivo os atletas do time masculino ganham mais do que as verdadeiras heroínas da modalidade?

Não há qualquer justificativa para essa desigualdade e, por isso mesmo, essas 28 mulheres boas de briga abriram uma outra frente de batalha: em março, entraram com um processo contra US Soccer, a federação americana do esporte, alegando “discriminação de gênero institucionalizada”. As jogadoras relacionam outros “efeitos colaterais” que vão além do salário, como os lugares e a frequência dos jogos e a qualidade dos tratamentos médicos.

O pior é a alegação da federação de que a diferença entre a remuneração era resultado do retorno financeiro gerado pelos times. Como assim, se são as mulheres que levam as pessoas aos estádios? Uma reportagem do “Wall Street Journal” não deixou dúvidas de que as vendas de ingressos da seleção feminina superaram as da equipe masculina entre 2016 e 2018.

A Fifa, que organiza os torneios mundiais, perpetua essa desigualdade: as 32 seleções masculinas que participam da Copa do Mundo recebem uma bonificação de 400 milhões de dólares, enquanto as 24 seleções femininas têm direito a 30 milhões de dólares. Como o Mundial da França bateu recordes de audiência, pode ser que as coisas mudem daqui para a frente – a propósito, a entidade estuda a possibilidade de as duas competições terem 32 times.

Mulheres do mundo todo sentem na pele essa discriminação. Recebem salários mais baixos que os homens e enfrentam uma dupla jornada quando têm filhos e ainda se responsabilizam pelas tarefas domésticas. Todas devem se inspirar na iniciativa dessas atletas incríveis, que foram buscar o que lhes é devido. Que o mundo corporativo também aprenda essa lição e reconheça a vergonha que é pagar menos pelo trabalho feminino. Nossa paciência está se esgotando.

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