Você já parou para pensar quantas vezes por dia vai ao banheiro fazer xixi? Em média oito, mas a maioria das pessoas não conta, porque tem acesso ilimitado ao toalete. No entanto, para um número crescente de trabalhadores, essa necessidade fisiológica tão natural está se tornando um luxo. Mês passado, o jornal britânico “The Guardian” publicou reportagem sobre denúncia de uma central sindical a respeito da precariedade de acesso a banheiros nos ambientes de trabalho. Motoristas de ônibus no Reino Unido ficam até cinco horas sem se aliviar e funcionários de call centers enfrentam severa limitação nas suas idas ao toalete. As mulheres, que costumam fazer xixi com maior frequência, são as que mais sofrem. O jornal fez um editorial duro, afirmando que as empresas deveriam parar de se comportar como se os corpos de seus funcionários fossem um “incômodo” e que o correto seria encorajar para que eles cuidassem da própria saúde.

Trata-se de negar tratamento digno a seres humanos, mas acontece debaixo de nossos narizes – e parece que não estamos nos indignando como deveríamos. O escritor James Bloodworth trabalhou incógnito num depósito da Amazon durante três semanas, em 2016, para escrever o livro “Hired: six months undercover in low wage Britain” (o equivalente a “Seis meses disfarçado como trabalhador com baixo salário no Reino Unido”). As jornadas eram de dez horas, transportando mercadorias para serem despachadas, o que fazia com que em média cada um andasse mais de 20 quilômetros por dia. Os supervisores se encarregavam de enfatizar que interrupções para ir ao banheiro ou beber água eram consideradas “tempo ocioso” e prejudicavam a produtividade.

Mas vamos ficar pelo Brasil mesmo. Quem frequenta salões de beleza pode fazer uma rápida pesquisa com as manicures sobre as normas para usar o banheiro – que não é o das clientes… Vejam que não estou me referindo a condições análogas às da escravidão, que são denunciadas pelo Ministério Público, e sim a estabelecimentos que funcionam dentro da legalidade. As novas regras econômicas têm criado contratos de trabalho mais flexíveis. Na terceirização de serviços, as maiores empresas vêm transferindo a responsabilidade pelo bem-estar dos colaboradores para companhias menores que, por sua vez, frequentemente não têm capacidade para garantir essas condições. Pode ser bom para os negócios, mas contribui para a desigualdade. Sem contar a quantidade maciça dos que estão na informalidade, matando um leão por dia. Nesses casos, chegar ao fim da jornada com algum no bolso é a regra que está acima de todas as outras.

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