Num de seus últimos números, a revista britânica “The Economist” faz uma análise da chamada gig economy, que engloba todas as atividades temporárias. Conhecemos isso bem de perto e aqui se chama “viver de bico”: de acordo com a consultoria A.T.Kearney, o Brasil é o país com nível mais alto de economia informal. No entanto, seu espectro é mais amplo e vem incorporando até profissões que demandam alta especialização. Se no século 20 a norma era dispor do empregado em tempo integral, que em troca tinha um salário, o século 21 começa a subverter esse cenário, criando um ambiente no qual dois grupos, o dos clientes e o dos prestadores de serviço, vão negociar na base da lei da oferta e da procura. A remuneração é por tarefa realizada e, à primeira vista, parece bacana trabalhar inclusive remotamente em qualquer parte do planeta e ter tempo livre para se dedicar a outras coisas do seu interesse.

O número de plataformas para conectar profissionais sem vínculos empregatícios vem se multiplicando. No Brasil, o Uber é sua cara mais conhecida, mas lá fora o leque é extenso: PeoplePerHour, Handy, Upwork, entre outros. Os serviços vão de faxina a montar apresentações em PowerPoint, de ajudante para carregar ou montar uma mesa a aulas particulares. Estatísticas oficiais sobre esse mercado ainda não são consistentes, mas pesquisadores avaliam que 1% da economia norte-americana já tem esse perfil. Os defensores da gig economy argumentam que sua flexibilidade cai como luva para quem tem filhos pequenos, para os mais velhos ou portadores de alguma deficiência. No entanto, os críticos apontam para o risco do fim dos salários decentes e o aumento da insegurança, principalmente para os trabalhadores menos qualificados.

Mesmo em países desenvolvidos, há questões preocupantes: como os governos vão manter a arrecadação de impostos se as pessoas têm rendimentos variáveis – e instáveis? E como esses indivíduos vão se proteger no caso de uma emergência que os impeça de trabalhar, como um acidente ou uma enfermidade? Não é tão grave se essa for a porta de entrada para o mercado, mas e se tornar-se a única alternativa? É o que parece estar ocorrendo na Itália, onde o desemprego entre os jovens está na casa dos 30%. Ainda que um horário flexível combine com os anseios de quem menos de 30 anos, há um enorme desafio pela frente: como essa geração vai conseguir poupar para a velhice? Será preciso disciplina de sobra para otimizar todas as chances de ocupação e ainda guardar algum. Além disso, sem um diferencial que seja apreciado e remunerado proporcionalmente, o poder de barganha do profissional é mínimo, e ele pode ter que submeter a pagamentos irrisórios. No caso brasileiro, o prognóstico é sombrio, dada a falta de qualificação da nossa mão-de-obra. A menos que surjam atividades curiosas como a dos exterminadores de aranhas, uma função que, na Austrália, tem mobilizado muitos integrantes dessa novíssima gig economy….

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