Atraídos pela valorização das criptomoedas investidores brasileiros também se deparam com ofertas suspeitas e podem sofrer golpes pelo caminho.

A Comissão de Valores Mobiliários tem recebido um número crescente de denúncias de empresas suspeitas de fraude envolvendo criptomoedas. A CVM estima que as denúncias sobre suspeitas de fraude em empresas não-participantes do mercado – “pessoas físicas e jurídicas que não possuem registro algum junto à CVM” – o que também inclui ofertas relacionadas a criptomoedas, devem mais do que duplicar este ano – de 124 em 2018 para 300 até o fim do ano.

Entre as empresas com processos administrativos em análise pela CVM com base em suspeitas de fraude estão Atlas Quantum,  notificada por oferta irregular de Contratos de Investimento Coletivo, Investimento Bitcoin, cuja campanha em TV e sites foi suspensa pelo CONAR, de acordo com a Representação Nº 195/19, sobre a campanha “Investimento Bitcoin – Invista bitcoin e ganhe de 1% a 2% ao dia por 300 dias” no dia 12 de setembro e Grupo Bitcoin Banco, que também controla as corretoras Negocie Coins e TemBTC.

“Caso receba proposta de investimento por parte dos envolvidos, entre em contato com a CVM pelo Serviço de Atendimento ao Cidadão (SAC), preferencialmente fornecendo detalhes da oferta e a identificação das pessoas envolvidas, a fim de que seja possível a pronta atuação da Autarquia no caso”, alerta a CVM. Basta preencher um cadastro no site e encaminhar o teor da denúncia – você pode anexar imagens, e-mails e outros documentos para a análise.

Em sua página online de Alertas ao Cidadão contra operações irregulares, a CVM recomenda investigar bem antes de investir. “A informação é a primeira linha de defesa contra golpes financeiros. Desconfie de promessas de retornos elevados com baixo risco. Rentabilidade e risco costumam andar de mãos dadas. Se é bom demais para ser verdade, provavelmente não o é. Baseie sua decisão em questões objetivas. Golpistas são normalmente pessoas simpáticas e que estão habituadas a mentir, por isso, tenha um espírito crítico”

Natalia Garcia, diretora jurídica e sócia da corretora de criptomoedas Foxbit, conta que é muito comum operações suspeitas usarem o nome de empresas reconhecidas no setor para dar credibilidade à oferta falsa. A recomendação, neste caso, é buscar os parceiros citados e verificar se eles realmente têm aliança com aquela operação. “Muitas vezes a empresa não tem nem CNPJ e é difícil encontrar os sócios responsáveis. Neste caso a gente notifica a empresa para retirar nosso nome”, afirma.

Checar o tempo e a qualidade da resposta nos canais de atendimento da empresa também é uma boa tática na investigação. “Hoje as exchanges mais sérias, respondem rapidamente”, observa Natália. Ela recomenda uma checagem geral nas redes sociais, incluindo a nota da empresa nos resultados de busca do Google, os comentários nas redes sociais e em serviços como o Reclame Aqui.

Natália lembra também de outro golpe comum envolvendo ofertas tentadoras de passagens aéreas em redes sociais que usaram o nome da corretora. “O golpista anuncia no Instagram dizendo que é revendedor da Gol, e pede para a pessoa enviar todos os documentos necessários para fazer um depósito em uma suposta conta da Foxbit só que a conta não é da empresa”, ela explica.

Se uma empresa prometer retorno fixo de investimento, a executiva recomenda pular fora. “Preste muita atenção porque não é possível garantir um rendimento fixo ao longo do mês para criptomoedas”.

Neste ponto, a Associação Brasileira de Criptoeconomia (ABCripto), formada por 35 empresas do setor, ressalta que seus “associados não trabalham com oferta de produtos de investimento com rentabilidade garantida, reforçando que oscilações de curto prazo são naturais, mas ao mesmo tempo podem apresentar bom rendimento no médio e no longo prazo, como é o caso do Bitcoin, que desde o final de março acumula valorização de cerca de 150% em relação ao ano passado”.

A preocupação com pirâmides e outras ofertas fraudulentas tem feito a associação avaliar um selo de qualidade, afirma Natália, que também faz parte do conselho da ABCripto. “A gente está tentando criar um selo de boas práticas para assegurar os consumidores sobre as empresas confiáveis do setor”, afirma.

Entre as boas práticas que a entidade estabelece para os associados estão dar explicações detalhadas dos riscos de investimento aos usuários, implantar um sistema adequado contra lavagem de dinheiro, emitir extratos mensais detalhados das transações aos clientes e fornecer um Informe de Rendimentos mensal com alerta para o recolhimento do IRPF para as movimentações acima de R$ 35 mil, com ganhos.

Para quem já tem uma carteira digital, o cuidado é evitar fazer investimentos em novos projetos em diretamente em criptomoedas, sem a possibilidade de entrar com dinheiro. Em caso de golpe será mais difícil reaver o investimento.

A empresa de segurança ESET também alerta para aplicativos falsos que também miram usuários de criptomoedas. Em maio, quando o Bitcoin teve uma valorização expressiva, a empresa alertou para um aplicativo falso da carteira digital Trezor, o ‘Trezor Mobile Wallet’, oferecido na Google Play para smartphones Android.

Sites e aplicativos falsos fazendo-se passar por exchanges são comuns. “Você precisa prestar muita atenção no endereço do site – às vezes há diferença de uma letra maiúscula ou minúscula -, checar se há um ‘https://’ – camada de segurança extra sobre o protocolo http – e também observar se não há imagens distorcidas no site”, aconselha Natália.

O sequestro de processamento para mineração de criptomoedas sem o consentimento do usuário é outro problema frequente. Embora o volume de novas ameaças de ‘cryptojacking’ tenha caído pela metade entre o primeiro semestre de 2018 e o mesmo período deste ano, segundo relatório da empresa de segurança Trend Micro, as ameaças estão mais elaboradas. Juan Pablo, diretor de inovação da Trend Micro para a América Latina conta que o sequestro de processamento não está restrito aos computadores mas já chega a celulares, roteadores domésticos e servidores corporativos. “Tudo o que o cibercriminoso puder usar como potencial de processamento ele vai usar”, observa. O prejuízo não é imediato, mas pode ser considerável tendo em vista que, além do consumo de bateria, há o uso do seu plano de dados móveis para minerar as criptomoedas alheias. Vale ficar atento e atualizar o dispositivo.

Procuradas pela reportagem, a Atlas Quantum respondeu que “o Atlas Quantum informa que, quando notificado, se manifestará nos autos dos processos”. O Grupo Bitcoin Banco disse que não iria participar da reportagem e informou “que sempre existiu uma troca de informações com a CVM, no sentido de demonstrar o modelo de atuação no segmento, porém não confirmamos processo administrativo com conotação de investigação“. A Investimento Bitcoin não respondeu a solicitação de esclarecimento até a publicação da coluna.

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