Que tal uma versão melhor de si mesmo? É isso o que um número cada vez maior de empresas e consultores prometem: retiros para meditação, técnicas de mindfulness, “life coaches” que supervisionam não apenas se você está se exercitando e comendo bem, mas também aprendendo a equilibrar as demandas do trabalho com as da esfera privada. De acordo com a empresa Marketdata, de banco de dados e tecnologia, este é um negócio que, somente no ano passado, movimentou 11 bilhões de dólares, ou seja, mais de 46 bilhões de reais.

Como a perfeição parece estar ao alcance das mãos, quem não está de acordo com os padrões vigentes tende a se sentir, no mínimo, deslocado. A sensação de não pertencimento só cresce ao se navegar pelo admirável mundo das redes sociais – porque ali quase todos já são uma versão melhor de si mesmos. Um revés como perder o emprego até angaria a simpatia dos usuários, com palavras de encorajamento e de crítica ao empregador que não soube apreciar as qualidades do demitido. No entanto, persistir numa trajetória de dificuldades e fracassos faz com que, pouco a pouco, as pessoas não se sintam desejosas de interagir com você, como se houvesse algo errado com alguém que atrai tantos problemas…

A revista científica “Emotion” publicou estudo bastante interessante sobre como a cultura da felicidade, que encharca a civilização ocidental, reage a experiências de fracassos. No primeiro de dois experimentos, três grupos deveriam completar uma tarefa de montar anagramas – um jogo que depende do rearranjo das letras de uma palavra ou expressão para produzir outras palavras ou expressões. Em duas dessas três equipes, a tarefa era de realização impossível e estava fadada ao fracasso. Depois de encarar a falta de êxito, um desses times era levado para uma sala “motivacional”, onde livros, pôsteres e adesivos na parede remetiam à ideia de felicidade. O outro era encaminhado para uma sala neutra.

Os derrotados que ficavam no ambiente “motivacional” acabavam passando muito mais tempo ruminando o fiasco e a frustração, sentimentos que não eram tão intensos entre aqueles que estavam num lugar neutro. Um segundo estudo corroborou esse achado ao mostrar que, quanto mais as pessoas acreditavam que havia uma expectativa para que não experimentassem sentimentos negativos, em pior estado se encontrava seu emocional. Os dois trabalhos constataram que a ênfase cultural na felicidade acaba tendo impacto negativo em como os indivíduos lidam com insucessos. Quando nossos sentimentos de frustração ou derrota não são validados pelos que estão à nossa volta, é grande o risco de entendermos que estamos errados ou somos incapazes. Na verdade, precisamos desse tempo de cura, para nos fortalecermos e estarmos prontos para a próxima batalha. Portanto, talvez seja uma boa ideia retirar-se dos holofotes digitais quando estiver atravessando uma situação que demande toda a sua energia e resiliência. Deixe o confete e as lantejoulas para a volta.

 

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