No século XXI, o que se poderia considerar um número razoável de horas para a jornada de trabalho? É o que os países mais desenvolvidos estão discutindo e avaliando. Na cidade sueca de Gotemburgo, um experimento que durou dois anos diminuiu a jornada de funcionários que trabalhavam numa instituição para idosos de oito para seis horas, sem perda salarial. Apesar de ter sido preciso reforçar a equipe com contratações, o resultado foi gritante: gente mais feliz, saudável e produtiva. No entanto, o custo do projeto se tornou objeto de intensa discussão na Suécia – e ainda é difícil imaginar que mesmo lá possa vir a ser implementado no curto prazo.
 
No Japão, o suicídio de uma jovem levou o presidente da Dentsu, gigante nipônica da publicidade, a renunciar ao cargo. Matsuri Takahashi tinha 24 anos, trabalhava na companhia há sete meses e fazia mais de cem horas extras por mês, muitas vezes chegando em casa às cinco da manhã! Deixou mensagens em redes sociais descrevendo-se como física e mentalmente “destroçada” e tirou a própria vida na noite de Natal. O governo japonês decidiu processar a empresa por causa da morte da moça e, na investigação, descobriu que pelo menos outras cem pessoas ainda faziam cerca de 80 horas extras por mês! A questão é tão dramática no país que as mortes por excesso de trabalho têm uma expressão para designá-las: karoshi.
 
A Amazon, notória por exigir um número excessivo de horas de trabalho, estuda a implantação de 30 horas semanais para um grupo selecionado de colaboradores e gerentes, mas estes receberão 75% dos seus vencimentos. Na França, conhecida pela legislação de proteção ao trabalhador, foi criado o “direito de desconectar”, ou seja, as pessoas poderão estabelecer um limite para não serem requisitados à noite, nos fins de semana ou nas férias. A ministra do Trabalho, Myriam El Khomri, fundamentou a necessidade da lei dizendo que a fronteira entre vida profissional e pessoal se tornou tênue demais, com a multiplicação dos casos de esgotamento, o famoso, burnout. O debate sobre a questão é da maior relevância por causa do impacto na qualidade de vida das pessoas. E principalmente porque no Brasil a situação não é diferente.

 

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