A expressão que define com mais propriedade o espírito islandês é Þetta reddast, que se pronuncia como “fet-ta-rad-ust” e significa algo como “no final, tudo vai se arranjar”. É usada em qualquer situação que envolva um problema, independentemente do seu grau de dificuldade. Mas engana-se quem pensa que essa espécie de slogan nacional quer dizer que os islandeses, deitados em berço esplêndido, não estão nem aí, apenas deixando que a vida os leve. Muito pelo contrário, porque, embora o país seja deslumbrante, com paisagens de tirar o fôlego, é também um desafio para a sobrevivência.

Descoberta pelos vikings no século 9, a Islândia encanta os turistas com o sol que se põe depois das onze da noite no verão, mas seus moradores enfrentam 20 horas de escuridão no inverno. Erupções vulcânicas de grande magnitude criaram os belos e áridos campos de lava. Em 1783, uma especialmente violenta matou 20% da população – na época, de 50 mil pessoas – e 80% das ovelhas, principal fonte de alimento num lugar de agricultura modestíssima. Atualmente, o país vive a expectativa de quatro ou cinco erupções, já que ainda são muitos os vulcões ativos.

Foram séculos de privação e isolamento. Em Reykjavík, a capital mais setentrional da Europa, vivem dois terços da população, hoje em torno de 350 mil. A língua se manteve intacta e eles fazem questão de preservá-la, apesar da dificuldade para falar e escrever – tanto que, na escola, aprendem inglês e dinamarquês. Condições que forjaram um povo que, acima de tudo, acredita em si mesmo. Em 2017, pesquisa realizada pela Universidade da Islândia mostrou que metade dos islandeses afirmava que Þetta reddast representava sua filosofia de vida.

Tive a oportunidade de passar quase dez dias viajando pelo país, tentando decifrar esse espírito de autonomia e resiliência diante de tantos desafios. Na deslumbrante Península de Snaefellsnes, os hotéis fecham em outubro e só reabrem na primavera, por causa das condições climáticas. Aliás, uma piada local diz que, se você está reclamando do tempo, é só esperar cinco minutos para ver como ele pode piorar. Quem trabalha com turismo tem vida de ave migratória. Ninguém mora na região central, onde no inverno só há campos de lava cobertos de gelo e a neve alcança mais de dez metros. Pergunto ao guia que nos leva para Landmannalaugar, que fica nessa área e demanda um carro com pneus especiais para atravessar riachos e subir pirambeiras: o que se faz em caso de uma pane? “Chamamos um amigo para nos ajudar”, ele responde. É mais do que uma crença de que se pode resolver os problemas. É a realidade do dia a dia de um povo solidário que enfrenta condições muito adversas sem choramingar. “We don´t think too much, we just do” (“não pensamos muito, simplesmente fazemos”), ele sintetiza. Uma receita que pode nos inspirar.

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