Não é a primeira vez que escrevo sobre a gig economy, que se caracteriza pelos trabalhos temporários ou sem vínculo empregatício. Esta é uma realidade inegável que vem mudando o perfil do profissional e das relações trabalhistas do século 21, cujos laços estão se tornando cada vez mais fracos. O problema é que normalmente são valorizados apenas seus pontos positivos, como a flexibilidade de horários e o fato de ninguém “ter patrão”. No entanto, essa abordagem esconde uma face sombria da nova ordem econômica que poderá ser conferida nas telas de cinema.

Esse é o tema de “Sorry, we missed you” (em tradução livre, “Desculpe, esquecemos de você”), novo filme do cineasta Ken Loach, cuja estreia no circuito britânico acontecerá no começo de novembro.  Há três anos, Loach venceu a Palma de Ouro do Festival de Cannes com “Eu, Daniel Blake”, outra crítica contundente ao sistema que marginaliza a fatia mais frágil da população. Agora sua atenção se volta para o mundo dos contratos que não estipulam um volume horas – mas que acabam engolindo todo o tempo das pessoas. É o que mostra ao apresentar os protagonistas, Ricky (Kris Hitchen) e Abbie (a estreante Debbie Honeywood), ao público. Eles formam um casal na faixa dos 40 anos, com dois filhos, cujo maior problema não é conseguir trabalho, e sim estabelecer um limite que impeça que as demandas das atividades arruínem suas vidas.

O marido se torna “colaborador” de uma empresa de entregas que faz questão de dizer que Ricky não trabalha para eles, e sim “com eles “. Na prática, tem que providenciar o veículo, que fica por sua conta e risco, e vira escravo de um scanner que monta suas rotas e determina seus movimentos. Benefícios? Nem pensar. Como lhe diz o gerente: “você é dono do seu próprio destino”. Sua mulher é cuidadora de diversos idosos e se ressente por não conseguir lhes dedicar a atenção necessária. Não sobra praticamente nenhum tempo para os filhos, alimentados com comida congelada esquentada no microondas. Quando surge um problema na escola, como vestir um santo sem descobrir o outro?

Loach, que está com 83 anos, também foi aclamado em Cannes com a nova obra. Histórias sobre a crueza da gig economy serviram de inspiração para o roteiro. Em janeiro de 2018, Don Lane, um entregador diabético, morreu depois de faltar a consultas de acompanhamento porque teria que pagar multas se não conseguisse um substituto para seu turno. Ele já havia sofrido dois colapsos antes, um enquanto dirigia. Relatos de abusos são cada vez mais frequentes e vem mobilizando políticos do Reino Unido, como os de entregadores que carregam garrafas para urinar dentro do carro, a fim de não perder um só minuto. A gig economy é apresentada como a terra da liberdade e do empreendedorismo, mas boa parte das pessoas se encontra sem qualquer proteção. A flexibilidade se assemelha a uma teia que que enreda suas vítimas.

 

Abbie e Ricky com os filhos: personagens de “Sorry, we missed you”, novo filme de Ken Loach / Divulgação

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