É bom começar o ano falando sobre o que se descortina no mundo corporativo e, se há algo que mudou substancialmente, é a relação dos jovens com o trabalho. Há décadas as pessoas não acreditam mais nas jornadas que em princípio vão das nove da manhã às seis da noite, porque horas extras se tornaram corriqueiras e o celular e as redes sociais fizeram com que muitos se mantenham conectados o tempo todo. Se a maioria se sujeitava por acreditar que não havia outra alternativa, hoje a correlação de forças mudou.

É verdade que o trabalho se tornou mais precário: o modelo de emprego para a vida toda ficou no passado. Por isso mesmo, o vínculo das pessoas com as empresas também sofreu uma transformação. Por que “dar o sangue” para uma organização? Para os jovens, se é para fazer algum sacrifício, que seja para abrir o próprio negócio, criar algo autoral, investir em si mesmo!

Empreendedores do calibre de Elon Musk, CEO da Tesla, afirmam que ninguém chega longe sem trabalhar duro, o que é verdade. Mas também é conveniente para eles convencer talentos que buscam suas firmas a doar integralmente seu tempo. No entanto, o que as novas gerações querem pôr em prática é canalizar sua energia para projetos que levem sua assinatura, e não de um poderoso chefão. Juventude é sinônimo de paixão, entusiasmo e desejo de realização. Aliás, o próprio Musk abriu sua primeira empresa com 24 anos. Nesse caso, ralar e ter uma jornada muito superior a 40 horas semanais faz todo sentido – o mesmo não acontece se o objetivo se resume a impressionar o gerente.

Esses são desafios para as companhias que quiserem reter talentos. O que elas realmente têm a oferecer? Há cerca de um mês, eu conversava com o executivo de um banco que me disse que o argumento financeiro já não tem o mesmo apelo para um crescente número de recém-formados. Eles sabem que a moeda de troca será um expediente de no mínimo 12 horas por dia, com viagens extenuantes, e agora pesam prós e contras, o que não acontecia com outras gerações. Por enquanto, apenas as empresas têm ganhado com relações de trabalho mais frágeis, mas em breve terão que aprender que as novas regras embutem um risco para seus planos de manter os empregados gravitando permanentemente em sua órbita.

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