Cena do documentário “American factory”: embate entre duas culturas (Divulgação)

Nesta semana, serão festejados os 70 anos da fundação da República Popular da China, um poder econômico que há muito ultrapassou as fronteiras do país. O imperdível documentário “American factory”, disponível na Netflix, mostra uma realidade que Donald Trump insiste em tentar minimizar. Depois que a General Motors fecha suas portas numa pequena cidade de Ohio, nos Estados Unidos, a chegada de uma empresa chinesa de vidros automotivos soa como música para os ouvidos dos operários norte-americanos que perderam seus empregos. No entanto, o embate de culturas muito diferentes não demora a acontecer.

Para os chineses, que ocupam praticamente todos os cargos de chefia, os americanos são preguiçosos e há até reuniões sobre como lidar com os trabalhadores que, após a empolgação inicial, passam a exigir o cumprimento de direitos que não constam do cardápio oriental. Na matriz, os empregados fazem jornadas mais longas, nunca se recusam a encarar horas extras e não conjugam o verbo reclamar. O documentário, dirigido por Julia Reichert e Steve Bognar, marca a estreia cinematográfica da produtora Higher Ground, do casal Barack e Michelle Obama.

Esse é um fenômeno que poderemos observar de perto com a expansão do poderio da China: como o estilo autoritário de gestão de uma ditadura vai se moldar às (boas) práticas valorizadas no resto do mundo? É possível que o modelo mais democrático, ensinado nas escolas de administração, perca espaço ou seja “interpretado” de forma diferente?

Em sua edição de 19 de setembro, a revista britânica “The Economist” trouxe uma reportagem sobre o modo asiático de gerenciar pela ótica de um professor. Segundo ele, os alunos orientais que vão para os Estados Unidos estudar em institutos de elite, como o Kellogg School of Management, são quietos e pouco participativos. No entanto, quando foi dar aula na Hong Kong University, constatou que eram falantes e cheios de opinião.

Apesar de entender que os estudantes se sentiam mais à vontade ali, o professor Yuk-fai Fong decidiu fazer uma pesquisa com os alunos e ex-alunos de Hong Kong, asiáticos e ocidentais. Pediu que dessem sua visão sobre comportamentos que são extremamente desejáveis (como ter integridade, ser visionário, premiar os bons desempenhos) e totalmente indesejáveis (como ser tirânico ou antissocial). O levantamento mostrou que os asiáticos eram mais tolerantes que os ocidentais em relação a estilos autoritários e focados apenas no desempenho e no lucro. Embora toda generalização seja ruim, por ser incompleta, a pesquisa joga luz sobre a estrutura organizacional prevalente na Ásia. Como será a correlação de forças entre culturas tão distintas – e que impacto isso trará para a gestão de pessoas – é o que acompanharemos nos próximos anos.

 

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