Sabe aquela sensação de que não se é bom o bastante, de que um dia alguém vai descobrir que você na verdade é uma fraude? Pois saiba que não está sozinho. Na verdade, você está na companhia de muita gente (boa) e que esta angústia tem nome: síndrome do impostor. O mais paradoxal é que as pessoas que se sentem assim são aquelas que estabelecem as metas mais altas para si mesmas, buscam desafios que dão aquele friozinho na barriga e testam seus limites o tempo todo. Está se reconhecendo?

Sheryl Sandberg, COO (chief operating officer) do Facebook, confessou que se sentia uma farsa quando estudava em Harvard e no início da sua vida profissional. A declaração está em seu livro “Lean In”, traduzido no Brasil como “Faça acontecer – mulheres, trabalho e a vontade de liderar”. Ela tem companhia: as atrizes Kate Winslet e Renée Zellweger também já deram entrevistas com teor semelhante, mas a síndrome do impostor não afeta apenas mulheres, embora os homens sejam muito mais autoconfiantes. Na verdade, o termo síndrome se popularizou, mas, entre os estudiosos, ela é conhecida como “impostor phenomenon” (fenômeno do impostor), expressão cunhada pelas psicólogas Pauline Rose e Suzanne Imes no fim dos anos de 1970. Elas criaram uma escala e seus estudos apontaram que 70% das pessoas já haviam passado por essa experiência pelo menos uma vez em suas vidas.

A cabeça de um “impostor” funciona assim: os cumprimentos têm vida curta e as conquistas não alimentam seu ego por muito tempo. Mesmo que o mundo externo dê sinais de aprovação – um aumento, uma promoção, passar num exame difícil – o “impostor” atribui o sucesso à sorte ou a qualquer outro fator, menos a seu talento e habilidade. Perfeccionistas têm mais chance de sofrer com este sentimento, assim como pessoas reconhecidas pelo seu alto desempenho, mas há efeitos colaterais adversos. O indivíduo se cobra tanto que pode caminhar para o esgotamento físico e intelectual, tornando-se deprimido e contaminando suas relações afetivas e familiares.

Numa de suas últimas edições, a revista “Psichology Today” entrevistou Frederick Anseel, professor de comportamento organizacional da Ghent University, na Bélgica, que citou dois tipos de comportamentos típicos deste grupo. Quando recebem uma tarefa, as pessoas que se consideram impostoras trabalham mais do que o necessário ou vão procrastinando, enrolando mesmo, até o prazo final. Quem trabalhou duro acha que só conseguiu realizar a tarefa por causa do enorme esforço que fez; quem deixou tudo para o último minuto acha que pode ter uma desculpa no caso de as coisas não darem certo – no entanto, como normalmente é competente, faz o que é pedido, mas credita o sucesso à sorte.

É razoável questionar-se, é saudável não se achar o maioral e a humildade é uma qualidade a ser cultivada, mas em excesso tais características podem ser destrutivas. Sentir-se um impostor pode embutir o risco de a pessoa se retrair e evitar o contato com outras, por vergonha ou medo de falhar. Portanto, se você se reconheceu no texto, está na hora de avaliar se a ansiedade e o perfeccionismo estão comprometendo sua qualidade de vida.

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