Até o fim de 2018, um terço da população mundial terá um smartphone, de acordo com a empresa de pesquisas eMarketer, especializada no mundo digital. O crescimento do número de funcionários que não se desconecta do trabalho é exponencial, mas será que isso está fazendo bem ao ambiente corporativo e às pessoas? Os que defendem a conexão ininterrupta argumentam que não há impacto no equilíbrio entre vida privada e profissional: você pode responder rapidamente a um e-mail urgente e voltar a dar atenção a marido, mulher e filhos, resolvendo logo um problema que poderia se agravar se deixado para o dia seguinte. Verdade que o “logo” pode se arrastar noite adentro, mas vamos ficar com o cenário mais otimista…

No entanto, cresce o consenso entre pesquisadores que o empregado plugado em tempo integral tem chances maiores de desenvolver um quadro de ansiedade que acabará se transformando num tiro no pé, ou melhor, na produtividade – dele e da firma. A professora Annie McKee, da University of Pennsylvania e autora do recém-lançado “How to be happy at work” (“Como ser feliz no trabalho”), é uma defensora dessa tese. Segundo ela, quem é incapaz de se desconectar acaba tomando decisões menos inteligentes, porque tende a reproduzir os mesmos padrões de comportamento e modelos mentais. Além disso, as redes sociais exacerbaram essa sensação de nunca desligar, sugando a energia dos indivíduos. Estudos mediram o número de vezes que um usuário checa seu telefone: varia entre duas vezes por minuto a uma vez a cada sete minutos, tempo precioso que interrompe tarefas e desvia o foco.

A Global Business Travel Association estima que, também ano que vem, somente os norte-americanos farão 554 milhões de viagens de negócios. Boa notícia para as empresas, porque esse vaivém é sinônimo de robustez do mundo corporativo. Mas, e do outro lado? Um estudo da University of Surrey, na Grã-Bretanha, e da Lund University, na Suécia, mostra que os executivos sofrem de envelhecimento prematuro e maior risco de ataques cardíacos. A fatura não para aí: isolamento e solidão causados pelos constantes deslocamentos acentuam o estresse emocional desses profissionais, que têm o triplo de chances de problemas psicológicos se comparados com os colegas que não saem do escritório.

O processo é lento, mas aos poucos as empresas vêm se conscientizando da necessidade de desplugar seus funcionários e deixar que oxigenem suas ideias. A fabricante de carros Daimler tem um sistema que permite que e-mails enviados durante as férias para os empregados sejam deletados automaticamente. O sociólogo italiano Domenico De Masi, que escreveu o best-seller “O ócio criativo”, lançou este ano “Alfabeto da sociedade desorientada”, com verbetes para entender a era contemporânea. No livro, ele aponta a contradição entre uma sociedade que tem conquistas de peso, como a longevidade e a tecnologia, e a crescente desorientação das pessoas em relação às suas vidas, pondo a culpa no estilo de vida competitivo e estressante. Não é um bom motivo para repensar as resoluções de fim de ano?

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