Na semana passada, a revista “Fast Company” publicou em seu site artigo que especulava sobre a provável expansão de um novo campo de trabalho: moderadores para a inteligência artificial. Gente de carne e osso para checar e dar limites ao “comportamento” das máquinas. Na prática, está claro que a inteligência artificial (ainda) não consegue dar conta das idiossincrasias e sutilezas humanas – e precisa de coaches, tutores… babás, se quisermos exagerar na ironia. Alguns especialistas chegam a prever um boom de empregos nessa área, para garantir que os sistemas de IA respeitem as leis e obedeçam às demandas do mundo civilizado.

Não se trata apenas do Facebook, atolado até o pescoço em polêmicas sobre a má utilização e a falta de controle da plataforma. É verdade que Mark Zuckerberg prometeu dobrar o número de pessoas trabalhando com revisão de conteúdos e segurança digital – atualmente seriam 20 mil funcionários – mas o movimento tende a ser replicado em outras empresas. O mundo eternamente juvenil e sem compromissos das redes sociais chegou à maioridade e, como qualquer adulto, tem que prestar contas, ser responsável e seguir padrões sociais aceitáveis.

No entanto, é preciso que todos paremos para pensar no perfil desses profissionais e também nas condições de trabalho a que serão submetidos. No que diz respeito ao perfil, como selecionar quem vai monitorar as complexas redes? Como garantir que preconceitos humanos não interfiram e comprometam uma análise que deveria ser imparcial? Sobre as condições de trabalho dessas pessoas, um documentário perturbador foi lançado no começo deste ano: chama-se “The cleaners”, algo como “Os faxineiros”, e foi exibido no Sundance Film Festival. Dirigido pelos estreantes Moritz Riesewieck and Hans Block, o filme se debruça sobre a rotina de jovens filipinos cuja função é analisar conteúdos das redes sociais e decidir se são ofensivos ou não. Cada um deles acessa milhares de fotos e vídeos por dia, “armado” com apenas duas opções: deletar, tirando aquilo do sistema; ou ignorar, garantindo sua permanência. Com o volume de informação a que são expostos, erros podem se tornar frequentes, mas o pior é o impacto psicológico de ser continuamente submetido a imagens de todo tipo de atrocidade. São como fantasmas: terceirizados, não aparecem na folha de pagamento das grandes empresas do Vale do Silício. Aliás, não estão sendo tratados como robôs?

Também na semana passada, o jornal americano “The New York Times” publicou reportagem afirmando que talvez seja a hora de essa elite tecnológica que trabalha para Facebook, Twitter, Google e outras plataformas amadurecer e cobrar mais consciência e transparência de seus empregadores. São profissionais de ponta, disputados no mercado, que poderiam estar à frente de mudanças que se mostram urgentes. Basta lembrar um caso: foi o depoimento corajoso de Susan Fowler sobre assédio sexual dentro da Uber que levou ao afastamento do ex-CEO Travis Kalanick da empresa. Moral da história: quem está numa posição de liderança não pode se omitir.

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