Nos Estados Unidos, o Equal Pay Day de 2018 aconteceu na terça-feira da semana passada, em 10 de abril. A explicação para ser uma data móvel é vergonhosa: se homens e mulheres ganhassem o mesmo, todos chegariam a 31 de dezembro com um valor recebido igual. No entanto, de acordo com diferentes institutos de pesquisa, as mulheres recebem em média 80% do que os homens, por isso a data mostra quantos dias elas têm que trabalhar a mais para equiparar seus salários. A entidade Equal Pay Today (www.equalpaytoday.org) vai além e aponta que essa diferença é ainda maior se o critério for racial. Para as negras americanas, o “dia da igualdade” vai cair em 7 de agosto; para as latinas, em 1º. de novembro!

Não temos estudo semelhante no Brasil, mas, segundo sondagem feita pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, realizada com base nos números da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios, o número de lares brasileiros chefiados por mulheres saltou de 23% para 40% entre 1995 e 2015. O quadro é semelhante nos EUA, onde elas garantem o sustento de pelo menos metade dos lares com menores até 18 anos. No caso das mães negras, o percentual chega a 80%, mas os obstáculos não param por aí. O US Census Bureau, o equivalente americano do nosso IBGE, fez um estudo sobre o impacto da maternidade na desigualdade de gênero. Logo após o primeiro filho, a disparidade de renda no casal dobra: há boas chances de a mulher deixar o emprego, ou diminuir as horas de trabalho para ficar com a criança. Entretanto, as que têm seu primeiro filho antes dos 25 ou depois dos 35 anos conseguem diminuir a distância salarial em relação a seus maridos. O motivo: antes dos 25, a carreira ainda está começando, não há tanto a perder; depois dos 35, ela está consolidada, ou num patamar de maior senioridade. O problema é que é justamente nesse intervalo de dez anos que a maioria pensa em ter filhos, já que as pessoas estão se casando mais tarde.

Danielle H. Sandler, uma das autoras do relatório, afirmou ao jornal “The New York Times”: “o nascimento de um filho é um evento que leva ao aumento da defasagem salarial”. Essa distância vai crescendo a cada novo bebê que chega e a situação não tende a sofrer qualquer alteração até que as crianças atinjam os dez anos de idade. A constatação do estudo deveria deixar cidadãos, empresários e governantes de cabelos em pé: vamos considerar crianças um estorvo para o país? É preciso haver uma grande mobilização para a criação de políticas públicas que subsidiem creches e auxiliem as mulheres a reingressar no mercado de trabalho. Para as empresas, parece um bom negócio ter empregados em longas jornadas e disponíveis 100% do seu tempo, mas essa inflexibilidade acaba criando funcionários mais suscetíveis de sofrer da síndrome de esgotamento. Por último, mas não menos importante: a desigualdade salarial impacta negativamente a economia, diminuindo a produção de riqueza e de oportunidades.

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