Existe dívida boa? Existe, mas certamente não é esta descrita pelo escritor Mario Benedetti no conto “O orçamento”.

“Isso, os biscoitos, foi o primeiro passo. Logo depois, veio o par de sapatos que o Chefe comprou. Depois dos sapatos do Chefe, minha caneta adquirida em dez prestações. Seguiu-se à minha caneta o sobretudo do Segundo Oficial, a carteira da Primeira Datilógrafa, a bicicleta do Primeiro Auxiliar. Um mês e meio depois, estávamos todos endividados e angustiados”.

A história se passa numa repartição e estavam todos angustiados porque começaram a se endividar contando com um aumento que fora prometido. É uma situação recorrente em qualquer país e em qualquer época. Benedetti retratou a vida do montevideano comum entre as décadas de 1950 e 1960, período em que o conto foi escrito e em que o Uruguai viveu o auge e o declínio econômico do pós-guerra.

Mas pense um pouco e lembre quantas pessoas você conhece que já passaram por situação semelhante nos dias de hoje. Não é preciso nem mesmo contar com um aumento salarial. Vamos ficar no décimo-terceiro salário, por exemplo. Quantas vezes você não viu (ou até se viu) usando a grana extra que chega no final do ano para dar de entrada em algum financiamento?

A dívida boa não causa angústia porque ela é barata, cabe no orçamento e não cria armadilhas. Ocorre que no Brasil de juros altos e spreads bancários estratosféricos endividar-se virou sinônimo de falta de educação financeira e de estar metido em situação de insolvência.

Nem sempre é assim, contudo. Tomar um empréstimo para realizar um sonho é legítimo. Mas para que não vire pesadelo alguns cuidados são necessários. É fundamental separar o joio do trigo. E neste caso o joio são os spreads elevadíssimos (diferença entre a taxa de juro básica e o custo final do crédito).

Daí a necessidade de conhecer as linhas de crédito disponíveis para sua necessidade e pesquisar cuidadosamente o custo efetivo total (CET) deste financiamento entre bancos e cooperativas.

Mas antes de sair a procura do crédito ideal, veja qual a sua capacidade de pagamento. Uma boa olhada no seu orçamento e a soma de todas as prestações que você já paga jogará luz nesta informação. A soma total de todos os seus compromissos com prestações mensais não poderá ultrapassar 30% de sua renda líquida (ou seja, já descontados os impostos).

A taxa básica começa a cair no Brasil. Mas os spreads bancários só vão ceder de verdade quando o tomador do crédito fizer a sua parte, ou seja, forçar a concorrência. Neste sentido, a tecnologia com as Fintechs e os avanços em governança das cooperativas de crédito conspiram a favor.

 

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