Recentemente, quando dava uma aula sobre o perfil do profissional que atua na área de comunicação diante das novas exigências do mercado,  um de meus alunos me questionou sobre o motivo de perguntas bizarras terem sido incorporadas às entrevistas de emprego. Pedi que desse um exemplo e ele me contou que um amigo fora entrevistado poucas semanas antes e que o recrutador tascara à queima-roupa: “quantas pessoas trabalham em escritórios no Centro de São Paulo?”. Respondi que, provavelmente, o objetivo não era ter uma resposta correta, e sim avaliar como o candidato se comportaria: se tentaria fazer um cálculo com base, por exemplo, no número de habitantes da cidade; ou se optaria por uma reflexão sobre a saturação dos grandes centros; ou ainda se encontraria uma saída bem-humorada para a pegadinha. No entanto, a turma toda, e eu inclusive, cravou o veredito: não há qualquer motivo razoável para submeter quem já está numa situação de estresse a esse tipo de questão.

Pelo visto não estamos sozinhos na avaliação. O jornal britânico “The Guardian” também publicou reportagem bastante crítica em relação à iniciativa que, em inglês, foi batizada como “brainteaser”. O exemplo dado pela publicação é ainda mais sem pé nem cabeça: “quantas gotas há numa garrafa de gim?”. Pelo visto, a modinha é planetária, com a justificativa de que a conclusão não importa, e sim o processo mental posto em marcha para chegar a uma explicação. Tudo parece ter começado em empresas de consultoria, para testar a rapidez de raciocínio de aspirantes a uma vaga. Como o mundo corporativo tem uma relação simbiótica com consultores, a praga se espalhou e chegou aos estagiários.

Uma pesquisa realizada com mais de 700 pessoas, submetidas a três tipos de perguntas – uma tradicional do tipo “você sabe ouvir os outros?”; outra do gênero comportamental, como “conte uma experiência na qual fracassou”; e, finalmente, uma da categoria “brainteaser”, como “quantas janelas há em Nova York?” – mostrou que esta é inútil para descobrir os melhores candidatos. Na verdade, é o tipo de questão que atende mais ao narcisismo – ou seria sadismo? – do entrevistador. Um comportamento agressivo como esse, no que seria a porta de entrada de uma empresa, pode até significar algo mais sombrio: que, dentro da organização, pode se esconder uma cultura de abuso moral. Se pensarmos na já gigantesca lista de atributos e habilidades que são exigidos de quem procura um emprego, mesmo que de baixa remuneração, a conclusão é de que nossos jovens poderiam ser poupados dessa tortura.

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