A University of East Anglia, na Inglaterra, divulgou, na semana passada, uma pesquisa mostrando que ser alvo de agressões no ambiente de trabalho tem um efeito ainda mais impactante para as vítimas: também altera o comportamento dessas pessoas, levando-as a se portar mal em relação a terceiros. O levantamento foi conduzido pela pesquisadora Roberta Fida, em parceria com especialistas da Itália e dos EUA, e divulgado na “Frontiers in Psychology” (“Fronteiras na Psicologia”), uma das maiores publicações nessa área. Ele sugere que experiências de raiva e medo, associadas com agressões no trabalho, podem levar ao abandono de normas de conduta e códigos de ética. O estudo envolveu 855 enfermeiras que foram entrevistadas sobre episódios de assédio e envolvendo emoções negativas. Em seguida, foi pedido que relatassem alterações no seu comportamento em decorrência disso. Os relatos registraram insultos a colegas, furtos, contenção de pacientes e mudanças em prescrições sem aviso prévio aos médicos.

“Ser alvo de agressão e vivenciar uma situação de frustração pode levar essas vítimas a experimentar uma raiva que pode se transformar num impulso agressivo”, explicou Roberta, que tem PhD em psicologia. Essa é uma questão particularmente sensível no setor de saúde. Enfermeiras podem sofrer assédio não apenas de colegas, mas também de pacientes e suas famílias. Já é sabido que o estresse a que os profissionais são submetidos nessas condições provoca problemas de saúde, mas ainda não havia sido realizado um levantamento sobre o impacto no comportamento desses indivíduos. O estudo realizado na University of East Anglia pretende servir de base para a criação de programas de bem-estar dos funcionários, focando na qualidade das interações dentro da equipe e com os pacientes.

No entanto, o problema não se restringe à área da saúde. Muitas empresas não se dão conta de que esse círculo vicioso já se instalou e de como toda a organização pode ser afetada. Eu mesma já presenciei casos de sabotagem dentro de organizações: pias de banheiro que eram entupidas com papel higiênico; impressoras que travavam porque objetos tinham sido colocados em seu interior; e por aí vai, sempre com a possibilidade de a escalada desses atos atingir um patamar de risco corporativo. O que se vê é uma situação de doença profissional muito além da falta de engajamento. Se a pessoa entende que o ambiente ao seu redor é ameaçador e tóxico, o resultado pode ser um quadro de vácuo moral. O campo de atuação de Roberta Fida é justamente a relação entre estresse e comportamento antiético no trabalho e, a propósito, o nome do estudo deveria ser o norte para todos: “First, do no harm” (“Em primeiro lugar, não faça mal”).

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