Tinha uma grana razoável investida em blue chips. Eram outros tempos. Um economista metido a galã dizia todo dia na televisão que a Bolsa chegaria aos 200 mil pontos.

 No dia em que a The Economist colocou turbinas no Cristo Redentor, eu virei pra Julia, minha filha, então com cinco anos, e anunciei:

– A partir de agora você ganhará uma mesada. Duzentos reais por mês.

Minha mulher achou muito. Geni, a diarista que não faz café para qualquer um, gritou da cozinha:

– Tudo isso? Então me dá um aumento!

Dei o aumento para Geni e mantive a mesada de 200 paus.

Comprei um SUV. Os dois vizinhos de garagem também. Não dava para abrir a porta de nenhum dos lados. Aos domingos, com todos os carros na garagem, a gente tinha que sair pelo porta-malas. Ninguém reclamava.

Brasil takes off.

O resto é história. O foguete broxou. A bolsa despencou. O crédito acabou. Troquei o SUV por um HB 20. Vendi o HB 20. Comprei uma Scooter. Vendi a Scooter. Passei a andar de Uber, quando dá. Uber Pool, claro.

Fiz vários cortes na mesada da Julia, até suspendê-la por tempo indeterminado quando vendi minhas três mil ações da OGX – por vinte centavos cada.

Agora que o país ensaia uma reação – BC aproxima os juros da mínima histórica, a bolsa atinge sua pontuação máxima, etc, Julia me cobra:

– Pai, está na hora de você voltar a me dar  mesada, não?

– Ok. Dez reais por semana. Se o país melhorar, pra valer, eu aumento para 15.

Geni ouviu tudo da cozinha. Silêncio sepulcral.

1 0