Tenho um casal de amigos que divide, de forma rigorosamente igual, todas as despesas da casa. No começo, antes do primeiro filho nascer, eles iam juntos ao supermercado. Ao passar pelo caixa, cada um pagava metade da conta. O mesmo valia para a compra de água, de luz, da prestação do carro, do restaurante, da feira, da diarista etc.

Quando o Moacir ficou desempregado, sem receber um tostão,  Valéria assumiu as despesas, mas não deixou de anotar tudo. Assim que ele voltou a trabalhar, ela descontou das despesas da parte dela o empréstimo concedido ao marido. Cobrou juros

Eu achava um tanto neurótica essa combinação. Sim, direitos iguais, sobretudo quando os dois trabalham e também dividiam as tarefas domésticas, mas eu não conseguiria ser tão metódico, muito menos austero.

Mas o trato nunca foi motivo de briga. Até o nascimento de Pedro Henrique. Os dois se revezavam no cuidado ao filho e como não tinham babá, não podiam mais se dar ao luxo de ir ao supermercado juntos. Valéria recusou-se a dar seu cartão e senha para Moacir – intimidade, assim como o cartão, tem limite.

Como a despesa com comida, bebida, limpeza, etc correspondia exatamente ao gasto com luz, água, prestação do carro, foi feito um novo trato. Moacir pagaria a conta do supermercado e da feira e Valéria ficaria responsável pela prestação do carro, pela conta de luz, água e telefone.

No começo, deu tudo certo. Até que veio o aumento da inflação, sobretudo dos alimentos. As despesas de Moacir explodiram (pra piorar, Pedro Henrique adorava tomate). Numa noite, ele desabafou: a divisão não estava sendo mais justa. Valéria, com depressão pós-parto, achou que ele estava sendo  demasiadamente mesquinho e se recusou a fazer um novo trato.

O casamento afundou. A economia do país, também. Veio a recessão, a queda no consumo, o que refletiu nos preços dos alimentos. O tomate despencou. O feijão também, ao mesmo tempo em que explodiu a crise enérgica. A conta de luz e de água dispararam. Foi a fez de Valéria reclamar com Moacir: ela estava gastando quase o dobro do que ele. Moacir, rancoroso, disse que o problema era dela.

Hoje eles estão separados. Cada um que se vire com o tomate do Pedro Henrique.

 

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