Dez anos atrás, a psicóloga Claudia Puntel trabalhava em uma consultoria de empresas, atendendo o RH de indústrias gigantes, nacionais e multinacionais. Entre os desafios que os clientes traziam, muitos eram relacionados a funcionários que sofriam de TPC – tensão pré-casamento. “Percebi a necessidade de trabalho especializado nesse campo”, diz Claudia.
Hoje, trabalhando com “coaching” de noivos, Claudia conta que muita gente chega ao seu consultório pronto para pagar uma “terapia” e salvar o projeto de casamento que está prestes a afundar.
P – O que é tão grave em um noivado que exige a mediação de um psicólogo?
O mais grave é quando começam os problemas entre os noivos e as famílias. Quando a noiva chega ao ponto de sofrer com ansiedade, pânico, falta de ar, baixa autoestima. Às vezes, um conflito com uma sogra pode tornar o casamento inviável.
P – Isso acontece com frequência?
Sim. Eu atendi uma noiva que estava organizando a festa com o noivo e eles iam dividir o custo do casamento com as famílias. A sogra, que só tinha filhos homens, na hora de negociar as coisas do casamento – o salão, a decoração – dizia: “se for desse jeito eu não pago”.
P – A sogra queria fazer as escolhas da festa no lugar da noiva?
Sim, e foi uma coisa bem grave, eu tive que trabalhar a entrada do noivo na história para negociar com a mãe. Ele nunca estava presente, foi um processo bem difícil.
P – Que outro caso foi complicado assim?
Uma noiva que não tinha mãe. Entrei para trabalhar coisas muito profundas porque ela entrou numa situação de desamparo, de não ter a figura que estaria ajudando em tudo, sendo parceira, vendo ela entrar na igreja e tudo. Esse tipo de situação pode fazer a (o) noiva(o) se sentir sobrecarregada (o) ao ponto de que não é muito ela.
P – Como as questões financeiras afetam o emocional?
Isso (a questão financeira) está sempre no fundo. O casamento é uma lente de aumento dos problemas que já existem. Se você deixa essas coisas de lado, na hora do casamento não dá mais para deixar.
P – Como?
São duas coisas. Uma é como cada um lida com o dinheiro de cada família. São duas pessoas que vêm de famílias diferentes, que tem hábitos e formas diferentes de lidar com o dinheiro, que se juntam e precisam chegar a um ponto em comum. Só que esse ponto em comum não chega, então começa a surgir uma traição financeira e quando casam, isso começa a se desenrolar.
P – Dê um exemplo.
Uma paciente minha quando se casou era dependente do marido, que por sua vez era muito desorganizado. Hoje ele continua desorganizado, mas ela se organizou e cresceu profissionalmente. Agora eles estão quase se separando porque ele não se desenvolveu, começou a perdeu clientes. Ele continuou sendo o que ele já era e ela se desenvolveu. Nesse momento estou marcando com os dois para conversar: ele está por baixo.
P – O que mais falta aos casais hoje?
Falta clareza, diálogo, achar que se pode deixar solto que com o tempo tudo se organiza. Se você deixar solto, a tendência é os problemas se voltarem contra o casal.
P – É comum você encontrar questionamentos envolvendo coisas como cartão de crédito?
É muito comum. O dinheiro é sempre algo em highlight. É através do dinheiro que a gente vai ver o quanto a pessoa é organizada, ou quanto é compulsiva ou carente. É muito forte esse tema nas relações e causa separação de muitos casais.
P – Quando você identifica esse problema, o que aconselha?
Eu trato o problema como um sintoma, a ponta do iceberg. Começo investigando de onde isso está vindo, da família de cada um. Quanto cada um tem que abrir mão de histórias da família que não fazem mais sentido na família atual e quanto cada um está dando para essa relação. Se cada um está dando 50% ou se um está dando 70% e o outro 30%, isso aparece na questão financeira como uma compensação. Se alguém está casado com o trabalho ou o dinheiro, tento trazer qual a insegurança que o dinheiro/trabalho está compensando.

CONTINUAR LENDO
1 0