Ao longo de quase três décadas chefiando equipes, trabalhei com muitas mulheres que se tornaram mães e posso garantir que, na maioria esmagadora das vezes, elas se tornavam melhores profissionais quando voltavam da licença maternidade. Sabiam gerenciar o tempo com maior eficiência – se a gente não se organiza, não consegue dar conta do recado! – mantinham o foco nas tarefas e desenvolviam empatia pelos colegas. Afinal, é mais fácil se identificar com os problemas alheios quando também estamos vivendo um grande desafio. Infelizmente, o mercado continua alheio e numa miopia que beira a cegueira.

Pesquisa recente feita pela Fundação Getúlio Vargas mostra como a gravidez ainda é sinônimo de cartão vermelho para um grande número de brasileiras. No levantamento “Licença maternidade e suas consequências no mercado de trabalho do Brasil”, os pesquisadores acompanharam o desempenho profissional de 247 mil mulheres que tiraram licença entre 2009 e 2012. O fim da estabilidade significou também demissão: depois de um ano, quase metade delas (48%) tinha perdido o emprego. O levantamento, realizado pela Escola Brasileira de Economia e Finanças da FGV, constatou ainda que, quanto maior o nível de instrução da funcionária, mais chances de permanecer no cargo.

Bem, não estamos sozinhas. Pesquisa realizada na Grã-Bretanha em 2015 estimou que 54 mil mulheres perdem seus empregos por ano porque optam pela maternidade. Outros dados chocantes que vieram à tona: 10% disseram que recebiam tratamento pior ao voltar ao trabalho. Além disso, uma em cada cinco mães experimentou algum tipo de assédio moral ou comentários negativos durante a gravidez ou quando reassumiu suas funções. Nos Estados Unidos, Joeli Brearley, despedida quando estava grávida de quatro meses do primeiro filho, criou o site “Pregnant then screwed” (em tradução livre, “Grávida e depois… ferrada”) onde mulheres podem publicar seus relatos de discriminação protegidas pelo anonimato. Elas também recebem aconselhamento jurídico caso decidam levar o caso à justiça. É o tipo de iniciativa que prosperaria por aqui…

A maternidade é uma experiência arrebatadora e, por isso mesmo, vem acompanhada de sentimentos intensos e contraditórios. Um dos mais recorrentes é a culpa por deixar o bebê aos cuidados de uma babá, da avó ou numa creche. A verdade é que largar o trabalho para ficar em casa com a cria vai afetar a carreira. Se esta ausência não for muito longa, é menos complicado buscar uma recolocação, mas, conforme o tempo passa, os contatos diminuem e a defasagem aumenta. Portanto, não resolva abandonar o serviço apenas porque acha que isso fará os outros felizes. É o tipo de decisão que poderá se transformar em ressentimento no longo prazo. A boa notícia é que cresce o número de pais que querem passar mais tempo com os filhos e dividir os cuidados com sua educação. Daí pode surgir uma nova pressão para alterar a legislação a favor dos casais. Pesquisadores suecos já haviam demonstrado que, quando a responsabilidade com o bebê durante seu primeiro ano de vida recai toda nos ombros da mulher, aumenta a chance de o casamento se deteriorar. Agora só falta o mercado parar de descartar mão-de-obra de qualidade – lugar de mãe é no trabalho.

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