Tomava um café acompanhada por um amigo numa charmosa livraria em Ipanema, zona sul do Rio de Janeiro, quando ela surgiu à minha frente e, muito simpática, disse que acompanhava minhas colunas na televisão e no rádio.

 

Àquela altura, vivíamos o auge da recessão que deixara milhões de brasileiros sem emprego ou pior, sem esperança. Por um instante, pensei: “pronto, mais uma vítima do desemprego à procura de orientação de como investir o dinheiro da indenização”.

 

Estava redondamente enganada. A moça, que aparentava ter apenas 30 anos, estava muito bem empregada e, além disso, dispunha de uma gorda aplicação financeira. Seu drama, por assim dizer, era outro: queria comprar o apartamento de seus sonhos ali mesmo, no Leblon, onde já morava num imóvel alugado, mas o valor de que dispunha ainda não era suficiente. “O que faço agora?” , foi a pergunta que me fez.

 

De imediato, lancei outra pergunta: “mas por que você quer comprar o apartamento logo agora?” . Afinal, estávamos vivendo um momento com taxas de juro muito altas e alugueis baixos, ou seja, a combinação perfeita para manter a aplicação, continuar pagando o aluguel com o rendimento, embolsar a diferença e esperar que o mercado lhe permitisse um financiamento imobiliário com uma taxa de juro mais favorável. Tudo isto considerando que o preço do metro quadrado no Leblon não costuma variar muito.

 

Mas para que lembrar desta história agora? Para falar do que é educação financeira. Se você faz parte do grupo que acha que educação financeira é ouvir alguém dizendo que você só tem que guardar dinheiro, está errado.

 

Educação financeira significa aprender a fazer escolhas, no dia a dia, usando informações econômicas, sendo que a mais importante delas é a taxa de juro.

 

A taxa de juro é o principal preço da economia. Ela deve ser o balizador das suas decisões econômicas porque envolve o custo de oportunidade. Ou seja, o preço implícito ao escolher onde aplicar seu dinheiro.

 

Para o senso comum, a moça da livraria seria considerada PhD em educação financeira. Sim, porque, com cerca de 30 anos, já tinha o suficiente para dar uma boa entrada na compra de um apartamento no Leblon o que, definitivamente, não é pouca coisa. Mas, isto implicaria em tomar um financiamento. E, naquele momento, abrir mão de rendimentos saborosos e adquirir uma dívida cara significaria uma escolha equivocada.

 

No entanto, se ficássemos apenas nos conceitos simplistas de que ser educado financeiramente é poupar, então, esta moça seria um exemplo a ser seguido. Ainda que viesse a perder dinheiro entrando num financiamento extemporâneo e, o que é pior, depois de ter tido uma conta bancária recheada. Tudo isso num momento em que 12 milhões de brasileiros já amargavam o desemprego.

CONTINUAR LENDO
1 0