As empresas do Vale do Silício se tornaram as recrutadoras mais perdulárias do planeta, com uma vantagem extra: oferecem ações que podem transformar o estagiário num futuro milionário. Atualmente, as apostas estão concentradas em inteligência artificial: reconhecimento de rosto e voz, máquinas capazes de conversar, veículos autônomos, monitoramento de saúde – e a demanda por profissionais é crescente. Especialistas nessas áreas, mesmo que tenham acabado de sair da universidade, recebem propostas de 500 mil dólares por ano, em salários e ações, segundo reportagem recente do The New York Times. No entanto, a sedução do bilionário mundo da tecnologia da informação está se alastrando e já atingiu as escolas públicas americanas.

Nos últimos cinco anos, a Google tem se empenhado em pôr seus produtos nas salas de aula: são os Chromebooks, laptops de baixo custo com aplicativos grátis, que vêm desbancando Apple e Microsoft. Estima-se que metade dos alunos de Ensino Fundamental e Médio no país – o equivalente a 30 milhões de crianças e adolescentes – navega no universo Google.  Provavelmente serão adultos que continuarão consumindo a marca. Em mais de cem colégios espalhados pelo país, Mark “Facebook” Zuckerberg vem testando um software que põe os estudantes no comando de seu próprio aprendizado, transformando os professores em “facilitadores”. A Netflix também realiza experimentos com um programa de ensino de matemática em diversos estados. Isso é filantropia ou um plano bem orquestrado para influenciar as ferramentas de ensino e o currículo? A Code.org, uma entidade sem fins lucrativos financiada pelo Vale do Silício, trabalha com o objetivo de fazer com que toda escola pública ensine ciência da computação. Bom porque os jovens se beneficiarão com uma nova expertise; e melhor ainda para as empresas que demandam cada vez mais programadores.

O orçamento apertado leva as instituições de ensino a não rechaçar os avanços dos gigantes da tecnologia, que têm cortejado os professores com mimos e programas de inovação. Afinal, mesmo lá os mestres são negligenciados pelo governo. Start-ups os convidam a participar de workshops e os estimulam a adotar suas plataformas e aplicativos – alguns se tornam embaixadores da marca. Possíveis questões de conflito de interesses ainda não vieram à tona, mas já há questionamentos sobre a necessidade de maior transparência nesse toma-lá-dá-cá. O mais importante é que o processo não tem volta e certamente provocará profundas mudanças na educação e no perfil dos profissionais das próximas décadas.  Se esse movimento resultar num salto prodigioso das habilidades das novíssimas gerações, quem estiver à margem poderá ficar relegado a uma posição secundária. E que ninguém tenha dúvida: essa nova onda chegará aqui.

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