Hollywood não é mais a mesma depois que as estrelas Angelina Jolie e Gwyneth Paltrow se juntaram ao grupo de atrizes que denunciaram o produtor Harvey Weinstein por assédio sexual. Ele foi expulso neste sábado da Academia de Cinema dos Estados Unidos e sua cara metade já anunciou que quer o divórcio. Quando duas mulheres conhecidas mundialmente vêm a público dar seu testemunho e jogar luz sobre esse tipo de violência, a causa ganha mais força. No entanto, longe de holofotes e redes sociais, a maior parte dos casos de assédio fica sem punição, principalmente porque suas vítimas não se sentem protegidas ou empoderadas o suficiente para denunciar o agressor.

No ambiente corporativo, além do uso inequívoco do poder, há comportamentos de assédio que ainda são justificados, como se isso fosse possível, como “brincadeira que foi mal interpretada”. Na década de 1980, um conhecido meu ocupava o cargo de diretor geral de uma multinacional e foi incumbido de criar um programa contra assédio na empresa. Decidiu que as diretrizes deveriam partir das funcionárias e o resultado da iniciativa não poderia ser mais simples: chamava-se “Mulher sabe” e ganhou elogios da matriz. Bastava que uma empregada procurasse o comitê formado por outras companheiras para o assediador ser denunciado. Não adiantava tapar o sol com a peneira – o limite entre um elogio e uma cantada indesejada é claro para todas.

Tenho uma amiga que, na sequência de ser assediada pelo chefe – que passou a criticar seu trabalho ao ver seus reiterados convites para jantar recusados – teve a sorte de ser convidada para um outro emprego e pediu demissão. Uma outra, quando morava em Brasília, marcou uma conversa exclusiva com um deputado (bem idoso) em sua casa e foi recebida por este vestido de robe (de cetim). Jornalista com anos de experiência, decidiu “levar na esportiva”, como ela conta, e disse ao parlamentar que não sabia que tinha chegado tão adiantada em relação ao horário combinado e que então esperaria no jardim enquanto ele se arrumava. O recado foi entendido e não houve insistência da outra parte. Entretanto, nos dois casos, ambos se safaram.

Em agosto deste ano, a também jornalista Basilia Rodrigues pediu para o deputado Wladimir Costa (SD-PA) mostrar a tatuagem (falsa) que afirmava ter feito em homenagem ao presidente Michel Temer. A resposta dele, diante de mais dez pessoas, foi um acinte: “pra você, só (mostro) se for o corpo inteiro”. Basilia publicou um texto nas redes sociais intitulado “Um ensaio sobre a idiotice”, criticando o desrespeito, o que provocou outra reação do deputado. Costa divulgou fotos da repórter na página pessoal dele dizendo: “assediá-la sexualmente ninguém irá acreditar, pois basta ver as fotos da mesma e todos irão ver que ela foge totalmente dos padrões estéticos que supostamente despertariam algum tipo de desejo em alguém”. Basilia optou por não travar um embate virtual com o deputado, para não alimentar o que classificou como “episódio lamentável”, e o Conselho de Ética da Câmara abriu processo para investigar o caso. Ela conta que, além das muitas manifestações de solidariedade que recebeu, foi procurada por várias jornalistas que viveram situações semelhantes: “tenho relatos como o de um político que sempre chamava as repórteres mais jovens para tomar vinho; outro parlamentar perguntava como a repórter estava vestida ao atender o telefone para conceder uma entrevista; e, durante uma abordagem de jornalistas a políticos, um deputado chegou a enfiar a língua na orelha de uma outra repórter. Acidentalmente, segundo ele”.

Aos poucos, a ideia de tolerância zero vai ganhando corpo. Weinstein não está sozinho em sua trajetória infame com um mais do que merecido final infeliz. Dov Charney, criador da badalada marca American Apparel, foi demitido de sua própria empresa em 2014, após anos de rumores de conduta inapropriada. Em junho deste ano, depois de uma investigação interna, o Uber demitiu 20 pessoas por assédio sexual. A ação foi desencadeada pela engenheira Susan Fowler, que publicou em um blog que a área de RH da empresa não havia punido seu gerente mesmo depois de ela ter reportado seus avanços. As vozes têm que se multiplicar e minar a trincheira de silêncio na qual os predadores ainda se escondem. É o que todas as meninas do mundo merecem.

 

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