A Academia de Hollywood torce o nariz para o diretor Steve Spielberg, tanto que a última vez em ele que ganhou um Oscar de direção foi com “O resgate do soldado Ryan”, em 1998. No caso de “The Post: a guerra secreta”, a obra concorre em duas categorias (melhor filme e melhor atriz) mas, mesmo que não leve nenhuma estatueta no dia 4 de março, Spielberg deixará sua marca – e quero falar especificamente sobre sua abordagem da questão feminina. O enredo mostra a batalha jurídica dos jornais “The New York Times” e “The Washington Post” para terem o direito de publicar os chamados “Papéis do Pentágono”, que provavam o envolvimento do governo americano na Guerra do Vietnã durante 30 anos. Meryl Streep interpreta com o brilho de sempre Katharine Graham (1917-2001), dona do “Post”. Ela foi de uma geração na qual mulheres eram vistas como capazes de dirigir, no máximo, uma casa. Tanto que seu pai havia escolhido o genro para tocar o jornal e a herdeira legítima só assumiu o negócio ao ficar viúva.

Além de ser uma trama envolvente do ponto de vista político e jornalístico, Spielberg fez uma homenagem a todas as mulheres que, a despeito das dificuldades, fizeram valer suas ideias e opiniões. Tímida e insegura, Katharine não conseguia ter voz nas reuniões de diretoria. Chegou a ser confrontada por um dos membros do conselho sobre a desconfiança de todos em relação a serem chefiados por uma mulher. Polidamente, agradeceu a “sinceridade” dele e, mesmo sob enorme pressão, decidiu publicar as notícias que poderiam até levá-la à prisão. Numa cena do filme, seu amigo Robert McNamara, envolvido até o pescoço no escândalo, afirma que ela será destruída. A resposta é firme: “estou pedindo seu conselho, Bob, não sua permissão”. É emocionante o momento em que sai da Suprema Corte americana depois da decisão que liberou os jornais a publicar os documentos secretos. Não faz qualquer declaração, mas é cercada por outras mulheres na escadaria – silenciosamente, elas mostram sua admiração e a consagram como um modelo a ser seguido. A parceria de Katharine e Ben Bradlee, o lendário editor-executivo do “Post” interpretado por Tom Hanks, garantiria logo depois os furos do Caso Watergate, que levaram o presidente Richard Nixon a renunciar.

Em março do ano passado, a agência de publicidade BETC lançou um aplicativo chamado Woman Interrupted, que identificava vozes femininas e masculinas numa reunião e contabilizava quantas vezes as mulheres eram interrompidas pelos homens. A iniciativa foi motivada pelo debate entre os então candidatos Donald Trump e Hillary Clinton na campanha à presidência dos EUA: Hillary foi interrompida mais de 50 vezes por seu oponente. Um estudo realizado em 2014 na Universidade de George Washington mostrou que mulheres são duas vezes mais interrompidas que homens em conversas neutras. A pesquisa utilizou 40 pessoas – 20 homens e 20 mulheres – e estimulou diálogos aleatórios. O resultado constatou que mulheres foram 2,1 vezes mais interrompidas por homens em conversas de três minutos. Em outro levantamento, da revista “Virginia Law Review”, professores da Universidade de Northwestern analisaram transcrições de sessões da Suprema Corte americana que cobriam um período de 15 anos. Identificaram que os juízes interromperam as juízas três vezes mais do que o fizeram com seus pares masculinos. O objetivo do Woman Interrupted, que era conscientizar e mudar a cultura que ainda vigora no ambiente corporativo, está disponível em vídeo: http://www.womaninterruptedapp.com/en/.

 

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