Acabo de ler um artigo cujo título é “Como tornar menos horrível demitir alguém nas festas de fim de ano”. E posso garantir: não há como tornar “menos horrível” esse tipo de ação, mesmo que consultores de RH criem manuais que chegam às raias do autoengano. Um dos argumentos é que deixar passar essa data para só depois efetuar os cortes pode estimular empregados a fazer gastos que pesarão quando estiverem sem emprego. Eu não conheço gente tão propensa ao endividamento – pelo contrário, o que se constata com maior frequência é o uso do 13º. para saldar compromissos financeiros, mas deixo que cada um tire suas próprias conclusões. Aliás, voltando ao artigo que estava lendo: entre as sugestões para diminuir o impacto das demissões perto do Natal, está a de evitar a surpresa, ou seja, é importante avisar com antecedência o que acontecerá, prática pouco usada por aqui. O pior é que vem se tornando cada vez mais comum uma espécie de faxina geral em dezembro, como se estivéssemos lidando com mofo, e não com pessoas. Mais: as demissões são acompanhadas de justificativas, para os que ficam, de que esse tipo de providência fará com que, no começo do ano seguinte, a empresa esteja ajustada e pronta para enfrentar os desafios. Difícil de acreditar. Na verdade, o que fica claro é que o foco da administração é primordialmente financeiro e o discurso sobre a relevância dos talentos se esvazia. E ainda há gestores que se esmeram em estragar o réveillon dos remanescentes deixando no ar a ameaça de outros ajustes nos meses subsequentes…

 

As empresas deveriam prestar atenção na distância colossal entre os roteiros prontos que utilizam para falar de missão, visão, valores e compliance, e o atos do dia a dia. Se tratar o funcionário com respeito e dignidade não passa de peça de retórica, estão criadas as condições para que a cultura do rancor contamine e envenene a organização. Quem escapa do corte sente um misto de alívio e culpa. Mas, acima de tudo, vê se esgarçar a relação de confiança que faz com que a rotina profissional seja produtiva e prazerosa. Mesmo os que ficam passam a encarar a firma como uma inimiga sorrateira, capaz de dar novo bote a qualquer momento. Que tipo de engajamento se espera de um time vivendo nesse tipo de ambiente? Em vez de torcer pela expansão e pelo êxito do empreendimento, um outro tipo de sentimento começa a se alastrar. Alguns dos colaboradores passam a empregar sua energia para buscar outra colocação. Outros internalizam tão fortemente o clima de insegurança que desenvolvem depressão e adoecem. A grande maioria desliga a chave de conexão com o trabalho, trocando a dedicação pelo cumprimento mecânico de tarefas. Se imaginarmos a empresa como um organismo vivo, resultado da soma da vitalidade e do empenho de seus empregados, teremos um paciente em cujas veias corre uma substância tóxica. Se não for tratado, esse veneno pode ser mortal.

 

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